Ao velho e querido amigo Pedro Godinho.
A repetição, ad nauseam, segundo a qual o Supremo Tribunal Federal, criado em 28 de fevereiro de 1891
15/06/2026 • 10:10 • Atualizado
Ao velho e querido amigo Pedro Godinho.
A repetição, ad nauseam, segundo a qual o Supremo Tribunal Federal, criado em 28 de fevereiro de 1891, vive a maior crise de sua história de 135 anos, em razão de alguns dos seus membros estarem envolvidos, até as fuças, em corrupção grossa, é do conhecimento geral de gregos e baianos que não veem perspectiva de melhora da imagem do Excelso Pretório no horizonte descortinável. Na verdade, depois de figurar, por tantos anos como a instituição mais respeitada e querida do País, hoje, o percentual dos que a rejeitam somado aos que, apenas, a consideram regular sobe a quase 80% da população brasileira de 220 milhões de habitantes. Haja fôlego! O problema adicional que passou a merecer a atenção geral decorre da ausência de qualquer expectativa, por pálida que seja, da modificação de tão vexatório panorama, de tal modo o brasileiro se transformou num povo corrupto, como anteviram os jornalistas Sérgio Porto, conhecido como Stanislaw Ponte Preta (1923-1968) e Roberto Pompeu de Toledo (1944-?).
O atual Presidente de nossa mais elevada corte de Justiça, Ministro Edson Fachin, considerado probo, não obstante o seu fundamentalismo ideológico tê-lo conduzido ao erro de anular os processos que levaram Lula à cadeia, no episódio que passou à história com o detrimentoso nome de Lava Jato, arguindo a jabuticaba jurídica de incompetência territorial ou de foro, fez sua primeira tentativa de resgatar a Suprema Corte do opróbio, propondo a elaboração de um Código de Ética para suas excelências, merecendo censura dos mais cultos que conjugam com o preceito moral kantiano que ensina ser “integridade obediência ao que não é exigido”. Diante dessa regra kantiana, o juiz que precisar de um código de ética para saber como pautar a sua conduta demonstra que não pode ser juiz por não possuir alma de magistrado, alguém a quem a sociedade confere poderes quase divinais.
A verdade que não quer calar é que enquanto os três ministros, que se encontram na linha de tiro da população que quer vê-los defenestrados, se agarram, com unhas e dentes, à tentativa de fazer valer um corporativismo suicida, os demais membros da Suprema Corte introjetam a convicção de que esse seria um erro fatal, capaz de consolidar e viabilizar o desejo irreprimível da sociedade de banir os “sepulcros caiados”, via impeachment, acompanhado de uma modificação radical do modo como, até agora, o STF tem operado, desde o modo como são escolhidos, passando pela idade mínima para assumir tão elevado posto, até a duração do mandato.
As inéditas dificuldades apresentadas na obtenção de uma delação premiada do banqueiro Daniel Vorcaro, preso desde novembro do ano passado, decorrem, segundo o jornalismo de bastidores da política brasileira, das resistências oferecidas pelas parcelas da Polícia Federal e do Ministério Público, órgãos do Estado, cooptados pelo Executivo e pelos membros do STF flagrados com a boca na botija, na prática da mais descarada advocacia administrativa de que se tem memória em nossa história de malversação do Erário. Segundo, ainda, essas fontes de bastidores, a solidariedade da parte sã do STF aos defuntos morais do Excelso Pretório consiste em acompanhá-los até à cova, sem nelas, porém, se deixarem enterrar, uma vez cumprida a cerimônia do adeus. Uma aposentadoria compulsória parece ser a hipótese mais provável desse festival de insensatez, a serviço da prática reiterada de um tipo de crime organizado, que se entranhou na estrutura dos três poderes para pilhar o Erário dessa República de Bananas chamada Brasil.
Pensamos constituir preceito de dignidade mínima acabarmos com o ufanismo ingênuo de repetirmos, vezes sem conta, que Deus é brasileiro, por não haver blasfêmia maior. Será por isso que, cansado de testemunhar tanta e tão generalizada safadeza, Deus tenha dado as costas à Terra da Santa Cruz, transformada na pátria da bandidagem generalizada, desde o recorde de furto de celulares, estimulado pelo próprio Presidente da República, até os modos mais infames de sangrar a bolsa popular, praticados pelos que ocupam a curul do poder?
Disso saberemos com o resultado das eleições de outubro próximo.
Joaci Góes
Joaci Goés é advogado, jornalista e empresário, além de ter sido deputado federal pela Bahia entre 87 e 91. Também ocupa o cargo de diretor da Associação Comercial da Bahia e sócio do Instituto Genealógico da Bahia.
