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Salvador, a cidade das Águas

15/10/2026 • 13:20

Cidade das águas. Esse foi o primeiro apelido que Salvador ficou conhecida. Segundo fontes documentais, a primeira capital do Brasil nasceu de um desejo da estrutura de poder portuguesa que almejou erguer uma capital do reino lusitano para esse lado de cá do Atlantico.

Foto Salvador, a cidade das Águas
Foto: Reprodução/ Arquivo Pessoal

Quando o rei de Portugal, dom João III mandou construir a primeira capital do Brasil, trouxe na bagagem real uma ordem expressa: que a nova terra tivesse "abundância de água". E de fato tinha. Quem andasse pelos pés das ladeiras e decliveis da cidade encontrava água brotando da terra. O padre Manuel da Nóbrega, jesuíta que tinha o belíssimo habito de registrar tudo, relatou em suas cartas que aquele era um "local de muitas fontes". Da Fonte do Pereira a Misericórdia, a água perene corria farta e limpida.

No início de tudo, Salvador era a verdadeira cidade das águas. O subterrâneo da jovem capital era — e ainda é — uma imensa e invisível galeria de captação e drenagem. Para saciar a sede dos primeiros moradores, o chão se abria em aproximadamente 150 fontes e 16 chafarizes. Uma riqueza que vinha desde o tempo das capitanias hereditárias, quando a pureza da água ditava o ritmo da sobrevivência.

Mas a convivência com tamanha fartura sempre exigiu disciplina. No início do século XVII, a preocupação com a higiene era uma obsessão que baita ás portas da Casa de Câmara e Cadeia, hoje Câmara de Vereadores. Quem ousasse lavar roupas ou banhasse debaixo das bicas e fontes da cidade, sentia o peso da lei no bolso: uma multa de alguns milhares de réis era logo lançada ao infrator. Na cidade das Águas, a água era sagrada e resguardada.

Fonte da Água Brusca Salvador

Fonte da Água Brusca Salvador


Com o tempo a cidade cresceu, expandindo-se para o norte, acompanhado a Baia de Todos os Santos, e com ela, a população multiplicou-se e os vastos espaços vazios das fazendas, chácaras e sítios começou a diminuir para dar lugar as pessoas. Salvador da Bahia começou a ser habitada de fato por gente de todo o nordeste do Brasil e da Bahia.

Por volta de 1800, o crescimento populacional desordenado começou a cobrar seu preço. As sagradas águas, antes límpida, cristalina, inodora e insípida, tornou-se turva e mal cheirosa e de qualidade duvidosa. Documentos mostram que em 1785, as autoridades municipais já olhavam com preocupação para o futuro, cogitando buscar alternativas para o consumo nos rios mais distantes, pois os minadouros e fontes urbanas já não davam conta. Em meados do século XVIII, os relatos eram dramáticos: as condições da água que o soteropolitano bebia eram simplesmente péssimas, e fontes de várias epidemias.

Fonte da Preguiça

Fonte da Preguiça


Em 1850, Salvador já abrigava 60 mil pessoas habitando uma cidade ainda pequena com freguesias/bairros super populosos e desorganizada. Conseguir um gole d’água limpa virou um luxo para poucos afortunados. Foi nessa época que se propagou os famosos agueiros, homens que transportavam o líquido precioso no lombo de mulas até as "casas de vender água". O preço era exorbitante e flutuava ao sabor do tempo: na seca, a água valia ouro; nas chuvas, o preço cedia um pouco, mas o bolso sempre sangrava. Quem não podia pagar, restava o consumo de bicas contaminadas. O resultado não tardou a acontecer: constantes pestes e terríveis epidemias castigaram a população, fruto direto da falta de higiene.

Em 1852, uma lei finalmente criou o serviço de abastecimento de água da cidade, dando vida à primeira Companhia de Água do Brasil o Queimado, localizada até hoje na região da Lapinha, bairro da Liberdade, e que infelizmente está em ruinas, esquecida pelo poder público. A CIA buscava sua força em uma das nascentes do Rio Camurugipe. No ano seguinte, 21 chafarizes começaram a funcionar nos principais pontos da cidade, trazendo um breve alento de modernidade.

Fonte da Munganga

Fonte da Munganga


Porém, é característica do poder público, dos gestores de Salvador ao longo de sua história correr sempre atrás do prejuízo. Na virada para o século XX, no ano de 1900, a cidade já explodia com pouco mais de 250 mil habitantes. A escassez voltou com força e o preço da água disparou para as alturas. Foi preciso esperar a primeira década do século XX para que um novo sistema de abastecimento começasse a se espalhar, levando encanamentos para poucas localidades do Subúrbio, a Barra, o Rio Vermelho, Pitangueiras e o Tororó.

Hoje, quem caminha pela secular capital do Brasil, entre o asfalto e os grandes edifícios, mal consegue enxergar esse passado líquido. Das centenas de nascentes do passado, espalhadas pelos sopés das ladeiras e declives, foram catalogadas pouco mais de 50 fontes sobreviventes, todas ou quase todas em ruinas e abandono total.

Fonte do Queimado

Fonte do Queimado


Essas fontes são testemunhas mudas da nossa história, esquecidas pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN. Esses antigos minadouros que alimentaram o império sofreram o pior dos destinos, o abandono total. Poluídos e esquecidos, muitos deles viraram tristes sanitários públicos a céu aberto como do chafariz da Contorno, da Rua da Independência, ladeira da Água Brusca, Fonte Nova e muitos, muitos outros.

A cidade que nasceu na abundância esqueceu-se de cuidar das suas próprias veias. E as fontes, as que restaram, continuam a verter suas águas como lágrimas de desesperos pedindo socorro.

Fonte do Queimado

Fonte do Queimado


As opiniões e comentários expressos pelos colunistas são de sua inteira responsabilidade e não refletem, necessariamente, a opinião ou posicionamento desta empresa.

Vinicius Jacob

Vinicius Jacob é professor, pesquisador, especialista em história da Bahia. Pesquisador sênior do livro 50 anos de urbanização: Salvador da Bahia do século XIX.