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Queremos Carne sem Osso e Farinha Sem Caroço

25/08/202619:16

Quem dita a revolução popular não é a ideologia, mas sim, o estômago. Em meados do século XIX, Salvador não andava apenas com fome; andava com uma pressentida fúria latente de séculos de descaso e corrupção patrocinada pelos donos do poder público. Revoltas populares como a dos Alfaiates, Sabinada, Malês e muitas outras sacudiam a Boa Terra volta e meia.

Foto Queremos Carne sem Osso e Farinha Sem Caroço
Foto: Imagem da Internet

A Bahia era governada por uma casta de ricos brasileiros e portugueses que controlavam a produção agrícola, principalmente a monocultura da Cana de açúcar e fomo, base das nossas exportações, bem como o monopolizam o comercio e as finanças, isso sem falar na fé dos baianos, com a igrejas e seus agentes doutrinadores que apesentavam as ovelhas, orientando-as a seguirem firmes na miséria ao qual estava mergulhada. Deus Proverá, a sua misericórdia não faltará!!!

O lucro fácil da exportação cegou os grandes senhores, que esqueceram o óbvio: ninguém se alimenta exclusivamente de fumaça e melaço de cana. Faltava de tudo na cidade de Salvador, principalmente, o básico. Faltava a farinha de mandioca, o oxigênio comestível que sustentava quase 90% da população comprimida entre a pobreza, servidão e a escravidão.

Com a escassez de alimentos, veio o oportunismo. Um punhado de comerciantes espertos monopolizou a venda da farinha no mercado soteropolitano, inflacionando os preços até às nuvens. Comer virou luxo de barão. Vendo do desespero do povão, a Câmara de Vereadores tentou agir como escudo do povo. Criou uma lei para tabelar os preços e ordenou que a venda fosse feita direto no celeiro público da cidade — uma espécie de "Cesta do Povo".

Contudo, a sensibilidade política é inimiga do povo e raramente habita os palácios. O presidente da província, o alagoano dom José Luiz Vieira Cansanção, Visconde de Sinimbu, achou por bem ignorar o roncar das barrigas dos baianos. Num golpe de autoridade “escrota”, anulou o decreto, destituiu os vereadores e colocou suplentes submissos em seus lugares. A cidade virou um barril de pólvora, esperando uma fagulha para explodir.

Qualquer observador mais atento, e até mesmo a polícia da época apostaria cegamente que o estopim seria os saques a armazéns, lojas de secos e molhados ou trapiches, dada a inflamação do povo. Mas a mulata velha, apelido carinhoso dada a Salvador guarda caprichos que a própria razão desconhece. Como falou Octávio Mangabeira tempos depois “pese em um absurdo, na Bahia tem precedentes”.

No ultimo e fatídico dia de fevereiro de 1858, o rastilho de pólvora foi aceso pelo coração — e pelo gogó — de raparigas trancadas. Vizinho à Câmara, funcionava o recolhimento de moças da Santa Casa de Misericórdia. Esse convento para moças rebeldes era administrado por freiras francesas austeras e de mãos pesadas. Naquele dia, as religiosas decidiram castigar fisicamente as jovens acusadas de serem "assanhadas" demais. Revoltadas, as meninas abriram o berreiro a todos os pulmões, gritando por socorro pelas janelas.

O clamor ecoou pelo passo municipal, hoje praça Tomé de Sousa. Rapazes que passavam por perto, movidos pelo ímpeto cavalheiresco, não pensaram duas vezes: avançaram contra o convento a chutes e pontapés, arrombando as portas para o resgate das rebeldes nada donzelas.

Esse tumulto amoroso coincidiu com a multidão que já se aglomerava, faminta e indignada na Praça Municipal. O grito das moças virou o hino da insurreição. A Cidade Alta transformou-se num turbilhão de corpos e vozes que clamavam em alto e bom som: “Queremos carne sem osso e farinha sem carroço!”.

O povão, em transe, invadiu a Câmara Municipal dando vivas aos vereadores cassados e pedindo a cabeça do presidente da província. A residência do governador virou alvo de uma chuva de pedras.

A resposta do poder, como sempre, claro, veio montada a cavalo, com baionetas e cacetetes. Forças policiais avançaram com extrema violência para conter o povo faminto e revoltado. Houve espancamentos, corpos pisoteados pelos cascos da cavalaria e manifestantes atirados encosta abaixo. O sangue correu solto pelas ruas e vielas da Freguesia da Sé.

Porém, há momentos em que a opressão esbarra na muralha da união popular. Afinal, o povo unido é uma séria ameaça o sistema! Temendo que o sangue derramado alimentasse ainda mais o fogo da revolta, o governador recuou. Engoliu a empáfia, reverteu a sua decisão autoritária e criou uma companhia oficial para oferecer alimentos a preços módicos.

No fim das contas, entre o amor proibido das moças e o estômago vazio da multidão, a Bahia provou que o povo unido é capaz de dobrar a prepotência e a arrogância dos palácios. Se o povo soubesse o poder que tem!!!

Vinicius Jacob

Vinicius Jacob é professor, pesquisador, especialista em história da Bahia. Pesquisador sênior do livro 50 anos de urbanização: Salvador da Bahia do século XIX.