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Solar dos Mariani, O Pulmão verde da Barra

21/09/2026 • 12:14 • Atualizado

Quem transita pela Ladeira da Barra, um dos muitos declives da valha capital da Bahia, e se o fizer sem muita pressa vai certamente contemplar uma das paisagens mais lindas de Salvador. Entre o vai e vem dos automóveis e o azul celeste da Baía de Todos os Santos verá logo ali embaixo, próximo ao Iate Clube da Bahia, bem no pé da ladeira, um lugar que parece flutuar fora do tempo, imune ás fúrias e ambições das incorporadoras imobiliárias multimilionárias. Mas terras e terrenos na Bahia nunca é só terras; guardam silêncios que gritam.

Foto Solar dos Mariani, O Pulmão verde da Barra
Foto: Internet

Aquele pulmão verde encravado em uma das áreas mais valorizada da cidade é, na verdade, cicatriz de uma disputa financeira que parou o Estado em meados de 1973. Essa história iniciou quando o poderoso e influente Banco da Bahia, colosso financeiro erguido pelo ouro negro do cacau e sob o comando do sofisticado e imponente banqueiro e político Clemente Mariani, foi vendido em segredo ao Bradesco.

A notícia caiu sobre Salvador como uma bomba de 1000 em festa junina. BOOM! De uma hora para outra, o Banco da Bahia Investimentos S.A, principal instituição de crédito do Norte e Nordeste, inclusive com forte penetração no setor petroquímico passava definitivamente para mãos paulistas.

O governador biônico Antônio Carlos Magalhães (1970-1975), no auge do seu estilo tempestuoso, quando foi surpreendido com a notícia, travou e rangeu os dentes. Temendo a fuga de investimentos no estado em uma época de grande crescimento econômico, declarou antes do desfecho que o negócio seria um ato desonroso e um baque no orgulho local, mas o aviso caiu em ouvidos planaltinos, e Brasília começou a mexer suas domas gentis ou (Join-Up), adestrando possíveis rebeldias.

Para piorar, a jogada colocava em risco o próprio Banco Econômico, já que o Bradesco abocanharia, por tabela, uma fração vital da instituição rival que à época figurava como uma das principais instituições bancarias do país. Era uma paulada certeira que iria exterminar o mercado financeiro baiano.

O troco veio em panelas ferventes. Da noite para o dia, diversas agências bancárias amanheceram depredadas, órgãos públicos retiraram seus depósitos, os jornais do Sudeste estampavam acusações de traição, bem como processos judiciais brotavam como ervas daninhas.

Foi no ápice desse vendaval que o governador assinou o golpe de misericórdia emocional: desapropriou por decreto o lendário e secular Solar dos Mariani, localizado em um terreno na Ladeira da Barra. E para selar o feito, utilizou da sua famosa ironia política, anunciou que o local viraria uma escola para crianças excepcionais na época chamada de “deficientes mentais ou retardadas”, batizada com o nome do falecido pai de Clemente Mariani, um respeitado e poderoso ex-presidente do Tribunal de Justiça, desembargador Pedro Ribeiro de Araújo Bittencourt. Uma homenagem com gosto de ironia.

Com o tempo, os poderosos se acertaram em Brasília, o Bradesco pagou o pedágio financeiro ao Banco Econômico e os processos sumiram das gavetas dos advogados. O tempo passou, os personagens se tornaram históricos, tendo seus nomes dados a avenidas e ruas e o banco mudou de dono. Mas o terreno da ladeira permaneceu lá, intocado, assombrado pela memória de uma afronta. Quem passa hoje pela Barra e admira aquele vazio arborizado tão cobiçado mal sabe que está olhando para a pedra fundamental de uma desafronta.

As opiniões e comentários expressos pelos colunistas são de sua inteira responsabilidade e não refletem, necessariamente, a opinião ou posicionamento desta empresa.

Vinicius Jacob

Vinicius Jacob é professor, pesquisador, especialista em história da Bahia. Pesquisador sênior do livro 50 anos de urbanização: Salvador da Bahia do século XIX.