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Simoes Filho, demitido pelo telefone

15/07/202609:17Atualizado

Por um hiato de tempo, um dos caminhos escolhidos para ser governador da Bahia, passava pela Ministério da Educação e Saúde. Em meados do século XX, esseministério não era apenas uma pasta técnica; era uma espécie de "capitania hereditária" que abrigou políticos baianos, a exemplos de Clemente Mariani, Pedro Calmon, Antônio Balbino, Edgard Santos e outros que sentaram na cadeira de ministro, usando-a como trampolim para o governo do estado.

Foto Simoes Filho, demitido pelo telefone
Foto: Internet

Em 1951, foi a vez de Ernesto Simões Filho. Proprietário do jornal A Tarde era o retrato do poder: herdeiro de uma das famílias quatrocentonas e influentes da Bahia, era também destaque no universo político e, acima de tudo, extremamente vaidoso. Aceitou o convite do presidente da república Getúlio Vargas para ocupar o comando do ministério da Educação com o brilho nos olhos de quem já via a faixa de governador da Bahia cruzando o peito.

Mas na política, como sabemos, o poder é efêmero, e o vento a todo o momento muda de direção, e mudou.

Em 1953, enquanto Simões Filho viajava pela Europa a trabalho, o Diário Oficial Federal foi implacável e nem um pouco gentil com o baiano. Enquanto respirava os ares de Florença na Itália, o aristocrata jornalista descobriu que não era mais ministro. Getúlio Vargas o havia demitido para dar lugar a outro baiano, Antônio Balbino.

Para um homem de sua estatura, ser "rifado" à distância era o golpe definitivo na sua reputação e honra, e isso aumentou burburinhos na boa terra: o todo poderoso dono do jornal A Tarde, uma das figuras da imprensa mais temida e odiada da Bahia, e conhecido como demolidor de reputações, agora era um ex-ministro sem direito a uma despedida.

Ao retornar, cercado pelos repórteres, aliados e principalmente desafetos, veio a pergunta inevitável: — O senhor não vai ao Catete se despedir do Presidente?

A resposta de Simões Filho não foi um grito, nem um desabafo rancoroso. Foi uma dessas frases que entram para a antologia da elegância política. Com o sarcasmo fino, ele sentenciou: "Perdi a pasta, mas não perdi a educação."

Simões Filho nunca chegou a ser governador. Mas, com uma frase, provou que a política pode até tirar o cargo de um homem, mas, se ele tiver berço e espírito, não consegue tirar-lhe a última palavra. O seu substituto no ministério da Educação e Saúde, o deputado federal Antônio Balbino foi eleito governador da Bahia em 1955.

Vinicius Jacob

Vinicius Jacob é professor, pesquisador, especialista em história da Bahia. Pesquisador sênior do livro 50 anos de urbanização: Salvador da Bahia do século XIX.