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Que absurdo! Enfim, até o próximo.

03/10/2026 • 10:00 • Atualizado

“Reparem como o brasileiro se espanta cada vez menos.

Somos, hoje, um povo de pouquíssimos espantos."

Nelson Rodrigues

 

Foto Que absurdo! Enfim, até o próximo.
Foto: Gerado por IA

Quando eu era criança, acreditava que o mal estava presente apenas nos contos de fadas e nos filmes animados. Não demorou muito até que percebesse que, na verdade, o mal estava em todo lugar. No mundo real, porém, ele não tem formas macabras: é feito de carne e osso, assim como eu, que escrevo, e você, que lê.

Engana-se quem, ainda preso às narrativas juvenis, pensa ser fácil identificar o mal. Afinal de contas, hoje em dia não faltam maneiras de praticá-lo e, sobretudo, de fazer com que sua existência passe despercebida.

Mas como algo tão infame poderia acontecer diante de nossos olhos sem que víssemos?

Inúmeros fatores contribuem para que isso ocorra, mas talvez um dos mais importantes seja justamente o fato de que é possível terceirizar o mal: diluí-lo entre diferentes agentes e, com isso, atenuar nossa percepção de sua gravidade e tornar mais difícil o rastreamento de sua autoria.

Talvez seja por isso que gostemos tanto de encontrar um rosto para o escândalo. No caso do Banco Master, Daniel Vorcaro nos oferece um. É muito mais compreensível imaginar que aquilo que deu errado começa e termina em um homem do que encarar a possibilidade de que determinados acontecimentos na verdade, dependam de um mecanismo muito maior.

O que quero dizer com isso é que, quando aquilo que é perverso encontra-se concentrado em um único indivíduo, é fácil apontarmos o dedo e sugerirmos as devidas penas. O problema começa quando o mal deixa de ter um único rosto e passa a operar por meio de um sistema capaz de distribuí-lo entre várias pessoas, cargos e departamentos.

A esse sistema de terceirização do mal, quando administrado pelo poder, darei aqui o familiar nome de governo.

Mas talvez eu mesma esteja, ao dizer isso, incorrendo no erro que acabo de apontar. Porque, se a diluição da responsabilidade entre diferentes agentes serve para fazer passar despercebido aquilo que é vil, reunir todos esses agentes sob uma única palavra pode produzir um efeito semelhante. Dizer simplesmente que “o governo” é responsável também pode ser outra forma de perder de vista aquilo que realmente importa: quem, afinal, está por trás das cortinas?

Afinal, o que é o governo senão um órgão regido por governantes? O governo não decide, não assina, não se omite nem se beneficia por conta própria. Pessoas o fazem. Tratá-lo como uma entidade singular pode até facilitar nossa indignação, mas pouco nos ajuda a destrinchar aquilo que há de errado dentro dele e, sobretudo, a dirigir nossas cobranças quando nossos direitos são violados.

Talvez seja esse um dos mecanismos mais eficientes da terceirização do mal: quando a responsabilidade está em toda parte, torna-se tentador atribuí-la a uma abstração. E, quando a culpa passa a ser “do governo”, corre-se o risco de já não ser, precisamente, de ninguém.

“O governo fez”, dizemos. “O governo permitiu.” “O governo roubou.”

Nessa abstração, nossa própria participação, como cidadãos a quem esse órgão deveria servir, também acaba relegada a segundo plano. O governo parece uma entidade distante demais para que possamos alcançá-la, complexa demais para que saibamos a quem cobrar e corrompida demais para que qualquer revolta pareça produzir algum efeito.

E talvez seja justamente aí que esteja uma das formas mais convenientes de perpetuação desse sistema: quando nos convencemos de que nada pode ser feito, acabamos garantindo esse resultado. A descrença no poder de nossa própria ação não extingue apenas a revolta; extingue, junto com ela, a parcela de responsabilidade que nos cabe diante daquilo que condenamos.

A falta de ação acaba por contribuir para a perpetuação do mal e, deixando de ser apenas espectadores da injustiça, tornamo-nos, nós mesmos, agentes de sua perpetuação.

Não é errado dizer que há certo conforto nessa impotência. Se tudo já está corrompido, se todos são iguais e se nenhuma reação é capaz de alterar coisa alguma, então resta-nos apenas assistir, indignar-nos por alguns minutos e seguir a vida.

Será?

Quase dois séculos atrás, o filósofo americano Henry David Thoreau já enxergava um cenário muito semelhante ao que hoje se repete. Foi em Desobediência Civil, obra que mais tarde influenciaria nomes como Gandhi e Martin Luther King Jr., que ele defendeu que nenhuma obediência ao Estado deveria exigir do indivíduo a renúncia à própria consciência e que não há coerência em condenar uma injustiça enquanto continuamos, cega e obedientemente, sustentando aquilo que a torna possível.

Em certo momento, Thoreau compara o Estado a uma máquina e admite que alguns de seus atritos, entre eles a injustiça, podem existir sem que caiba ao indivíduo interromper toda a engrenagem por causa deles. Mas, quando o funcionamento dessa injustiça depender de nossa própria participação, já não basta esperar que a máquina se desgaste sozinha. É preciso recusar-se a servi-la e fazer da própria vida a contrafricção capaz de interrompê-la.

É difícil não pensar nessas reflexões às vésperas de uma eleição. Neste domingo, milhões de brasileiros irão às urnas depositar, através do voto, suas expectativas sobre o futuro do país. Mas é importante que nossa responsabilidade política não termine quando sairmos da cabine eleitoral. Se acreditamos verdadeiramente naquilo que defendemos, essa convicção precisa nos acompanhar também na segunda-feira, e em todos os dias que vierem depois.

“Deposite todos os seus votos”, escreve Thoreau, “não apenas uma tira de papel, mas toda a sua influência.”

Quem sabe o problema não seja somente aquilo que fazem aqueles que colocamos no poder, mas sim aquilo que deixamos nós mesmos de fazermos, esperando bem dispostos até que outros remediem o mal.

As opiniões e comentários expressos pelos colunistas são de sua inteira responsabilidade e não refletem, necessariamente, a opinião ou posicionamento desta empresa.

Carol Taboada

Carolina Taboada é formada em Psicologia, empresária e CEO do grupo CGN