A inconveniente dor alheia : Sua tragédia chegou em péssima hora
17/09/2026 • 11:43 • Atualizado
Há alguns dias, enquanto voltava para casa, me deparei com uma cena funesta: uma mulher havia sido atropelada no meio da avenida e, enquanto aguardava socorro, faleceu.
Seu corpo estava estendido no asfalto quente de um dia ensolarado. Ao redor, policiais registravam a ocorrência enquanto, dentro dos carros, olhares impacientes aguardavam no trânsito incomum de uma terça-feira.
A crueza daquela cena me consumiu de pesar. Ao observar o entorno, porém, tudo permanecia impassível. Nenhuma alma gritava desesperadamente, nenhuma ambulância se apressava entre os carros e nenhum lamento era proferido. Como era possível que uma mulher tivesse sua vida ceifada e todos ao redor agissem com a mais serena casualidade?
E, sobretudo, por que eu também continuei meu caminho?
Não parei meu dia. Ninguém parou.
A vida daquela mulher estava para sempre acabada, mas, para o restante de nós, ainda era terça-feira, e as sentimentalidades teriam que esperar.
Só muito depois, com uma urgência infinitamente menor do que aquela que sua vida merecia, soube seu nome pelos noticiários: Neuza, 64 anos. Todos os dias, ela atravessava aquela região para fazer tratamento no CAPS local. Naquele dia, ao atravessar a rua, foi atingida por um veículo em alta velocidade. O socorro, apesar de haver uma base próxima, demorou mais de uma hora para chegar, e seu corpo permaneceu no asfalto por quase cinco horas após o acidente.
Ali, no meio da avenida, a haviam feito mais bicho do que mulher e mais espetáculo do que tragédia.
Sua dignidade lhe foi arrancada quase tão rapidamente quanto sua vida. E todos nós, condescendentes com a ideia de que não havia nada que pudéssemos fazer, nem mesmo nos comover, contribuímos para que aquele atropelamento não fosse apenas de corpo, mas também de alma.
Esse acontecimento me fez lembrar que, décadas antes, Chico Buarque já havia transformado essa mesma crueldade cotidiana em música. Escrita em 1971, durante a ditadura militar e em pleno chamado “milagre econômico”, Construção conta a história de um operário em um dia de trabalho comum. Ele se despede de sua esposa e seus filhos, sai para trabalhar, sobe na obra, executa um serviço e em uma distração, cai do prédio. A morte desse homem, algo absoluto e irremediável para ele e para quem o ama, para a cidade se torna um obstáculo em seu caminho. Em determinado momento, Chico escreve que o homem morreu “na contramão atrapalhando o tráfego”.
Mas quando foi que, enquanto seres humanos, perdemos a própria natureza de nossa espécie de sermos bondosos e compassivos? Ou será que essas qualidades ainda existem, mas já não encontram tempo para existir?
Uma possível pista para essa indagação foi dada pelo sociólogo alemão Hartmut Rosa. Em seus ensaios, ele trabalha a ideia de aceleração social: um conceito segundo o qual, na modernidade, a tecnologia, as mudanças sociais e o próprio ritmo de vida tornam-se cada vez mais rápidos e, com isso, passamos a tentar fazer cada vez mais coisas em menos tempo. O resultado paradoxal disso é que, mesmo criando ferramentas para economizar tempo, sentimos que temos cada vez menos dele.
Então, será que nos tornamos de fato seres sem compaixão ou simplesmente já não temos tempo para exercê-la? Afinal, para sermos afetados por algo, é preciso parar, refletir e sentir e, na sociedade moderna, essas ações parecem ter se tornado caras demais para serem “desperdiçadas”.
Foi lendo A Arte de Amar, de Erich Fromm, psicanalista e filósofo humanista, que cheguei à possível semente de uma solução para esse problema que atravessa todos nós. Fromm parte de uma ideia simples, mas rigorosa: é preciso investir no amor o mesmo tanto de atenção que devotamos a outras tarefas, visto que amar não é apenas sentir. É uma prática. Exige cuidado, responsabilidade, respeito e conhecimento do outro. Mas exige também algo cada vez mais raro no mundo atual: atenção.
Não basta que o sofrimento do outro passe diante de nossos olhos, é necessário permanecer diante dele tempo suficiente para que sejamos atravessados por ele.
E, para Fromm, essa disposição não deveria se restringir somente àqueles que nos são próximos. O amor maduro não é um privilégio afetivo reservado aos nossos, mas uma forma de se relacionar com o mundo. Amar verdadeiramente implica também cuidado, respeito e responsabilidade por aqueles que sequer conhecemos.
Eu não conheci Neuza. Não saberia dizer o tom de sua voz, a cor de seus cabelos ou qualquer uma das pequenas coisas que faziam dela quem era. Mas, naquela terça-feira, sua vida atravessou a minha.
E eu queria que tivesse atravessado a de mais pessoas também.
Carol Taboada
Carolina Taboada é formada em Psicologia, empresária e CEO do grupo CGN
