Crônica Cor-de-Rosa
28/10/2026 • 08:43
Estou sentada à mesa de jantar. O café já foi servido, o banquete, devidamente devorado.
Como de costume, recorro ao meu dispositivo eletrônico. As atualidades sempre me interessaram, e acredito haver algo de fascinante em poder acompanhar os acontecimentos de um mundo tão vasto de maneira tão íntima.
Sou, entretanto, invadida, sem meu consentimento, por notícias atrozes.
Leio que o mundo é mau e que os homens lutam entre si. Leio sobre injustiças que me parecem tão absurdas quanto distantes da vida que levo.
Leio sobre pessoas que morrem e sofrem, que lutam por comida, água e dignidade. Leio sobre aqueles para quem a sobrevivência constitui, por si só, uma batalha diária.
Mas, afinal, onde estão esses horrores mundanos? E por que não os vejo?
Faço uma breve recapitulação mental dos meus dias.
Todos os rostos me sorriem. Todos me acenam. As mãos estendem-se às minhas em cumprimentos calorosos. Por onde passo, encontro semblantes felizes, palavras gentis e uma incontestável cordialidade.
Não. Não é possível que exista tanta maldade no mundo.
Caso existisse, certamente eu já a teria visto.
Mais tarde, enquanto tomo banho, volto a pensar nos pequenos recortes de vida que encontro diariamente.
Será possível que as pessoas que me sorriem, tão logo eu lhes dê as costas, desfaçam a expressão alegre? Que aqueles rostos tão familiares abriguem tristezas das quais jamais tomei conhecimento?
Contrariada, chego à conclusão de que sim.
Penso nas pessoas que cruzam meu caminho, nas vidas que desconheço, nas dores que não me são apresentadas. Penso, sobretudo, na curiosa coincidência de que o mundo parece sempre tão agradável justamente onde estou.
Esses pensamentos me acompanham enquanto enxugo o corpo, penteio os cabelos e visto meu pijama de seda pura.
Agora sinto um amargor na boca e uma imediata indigestão. Meu banquete, antes tão agradável, parece ter adquirido o peso de mil pedras.
E, como alguém que procura um sabor doce para apagar o amargor deixado na boca, trato rapidamente de mudar de paladar.
Ligo a televisão.
Procuro uma distração banal e descomplicada. Algo que não me exija indignação, solidariedade ou qualquer espécie de responsabilidade.
Afinal, há muito que se processar sobre o mundo.
E eu também mereço descansar.
Considero, então, estabelecer um acordo comigo mesma, uma espécie de medida protetiva autoimposta: não mais ler notícias ruins sobre acontecimentos que não estejam ao meu alcance modificar.
Lembro-me do velho ditado: aquilo que não tem remédio, remediado está.
Reconfortada por tamanha sabedoria, preparo-me para dormir.
Mas, antes, faço uma oração.
Peço a Deus que, ao amanhecer, o mundo esteja um pouco menos cruel. Que não haja tanta fome, violência e sofrimento. Peço que a vida seja mais gentil com aqueles que não tiveram a mesma sorte que eu.
Peço, em suma, que o mundo amanheça cor-de-rosa.
Apago a luz.
E, por um instante, quase me convenço de que fiz a minha parte.
A indigestão, porém, persiste, e me reviro entre os lençóis macios e o travesseiro de penas, incerta de que somente recorrer à providência divina seja suficiente.
Ah, como eu era feliz hoje mais cedo e não sabia!
Quão oportuna é a ignorância… Penso que deveria tê-la saboreado mais.
Agora, infelizmente, já não posso.
Posso desligar a televisão, abandonar o telefone e até decidir nunca mais sair do meu esplendoso mundo cor-de-rosa.
Posso me cercar de todas as distrações possíveis e convencer-me de que certas desgraças estão além do meu alcance.
Mas já não posso desconhecê-las.
Suspiro.
Enfim, pego no sono.
Ao acordar, encontro o mundo tal como o deixei na noite anterior.
Parece-me que, enquanto Deus não atende às minhas preces, terei também de arregaçar as mangas.
Tomo meu café e trato, eu mesma, de ir colorir o mundo.
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Carol Taboada
Carolina Taboada é formada em Psicologia, empresária e CEO do grupo CGN
