Demanda mundial cresce, mas clima desafia cafeicultura baiana
João Lopes Araújo defendeu um programa permanente de barragens
Por: Domynique Fonseca
14/07/2026 • 13:03 • Atualizado
A perda de áreas produtoras por causa da seca e a necessidade de um plano permanente para garantir a disponibilidade de água no semiárido foram os principais alertas feitos pelo empresário, cafeicultor e presidente da Associação dos Produtores de Café da Bahia (Assocafé), João Lopes Araújo, durante entrevista ao Portal Esfera no Rádio, na Itapoan 97,5 FM, apresentado por Luis Ganem, nesta terça-feira (14).
À frente da entidade, que completou 30 anos de atuação em 2025, João Lopes afirmou que o maior desafio enfrentado pela cafeicultura baiana não está no mercado consumidor, mas nos impactos das mudanças climáticas. Segundo ele, a irregularidade das chuvas reduziu drasticamente a produção em diversas regiões do estado.
"O mundo continua consumindo mais café. A China está aumentando o consumo e isso garante o futuro da atividade. O problema não é vender café, o problema é produzir diante das mudanças climáticas", afirmou.
Como exemplo, o presidente da Assocafé destacou que, dos 102 municípios do semiárido baiano que cultivavam café há cerca de duas décadas, apenas 46 permanecem na atividade. Em algumas cidades, segundo ele, a cultura foi completamente abandonada:
"Tem município que não tem mais um pé de café. A chuva deixou de acontecer de forma regular, e o semiárido não possui rios perenes nem água subterrânea suficiente para substituir essa deficiência."
Diante desse cenário, João Lopes defendeu a implantação de um programa permanente voltado à construção de barragens e reservatórios para armazenar a água das chuvas, permitindo que os produtores tenham condições de enfrentar os períodos de estiagem.
Na avaliação dele, a convivência com a seca precisa deixar de ser tratada como uma ação pontual e passar a integrar uma política pública de longo prazo.
"Não é um problema de um governo. É um problema de Estado. Precisamos planejar agora para garantir a produção nas próximas décadas", disse.
O dirigente citou iniciativas adotadas por outros estados produtores, como Espírito Santo e Minas Gerais, que investiram na construção de reservatórios para ampliar a oferta de água destinada à irrigação das lavouras. Segundo ele, a Bahia também precisa estruturar um programa semelhante para evitar novas perdas de produção e recuperar municípios que deixaram de cultivar café.
Apesar das dificuldades, João Lopes ressaltou que a Bahia continua ocupando posição estratégica na cafeicultura nacional. Atualmente, o estado é o quarto maior produtor de café do país, atrás apenas de Minas Gerais, Espírito Santo e São Paulo, cultivando tanto o café arábica quanto o conilon.
Ele explicou que a manutenção desse desempenho se deve, principalmente, ao crescimento da produção de café conilon no sul da Bahia, favorecida pelas condições climáticas e pela disponibilidade de irrigação. Já em outras regiões, os efeitos da estiagem continuam limitando o crescimento da atividade.
Outra área considerada estratégica é o oeste baiano. Segundo João Lopes, a região reúne condições ideais para ampliar a produção, com disponibilidade de água, terrenos planos e possibilidade de mecanização. No entanto, muitos produtores substituíram o café por soja e algodão nos últimos anos, atraídos pela maior rentabilidade dessas culturas:
"Nós já tivemos cerca de 16 mil hectares de café no oeste da Bahia. Hoje estamos com aproximadamente 7.500 hectares. Com preços mais favoráveis, existe a possibilidade de recuperar essa fronteira agrícola."
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Reprodução/TV Gazeta
Café baiano conquista mercado pela qualidade
Além da produção, João Lopes destacou que a Bahia vem consolidando sua reputação na produção de cafés especiais. Segundo ele, essa estratégia começou ainda na fundação da Assocafé, quando a entidade decidiu investir em qualidade em vez de competir apenas por volume.
"Sabíamos que não seríamos o maior produtor do Brasil. Então decidimos trabalhar para produzir o melhor café possível", disse.
A iniciativa incluiu assistência técnica aos produtores e concursos de qualidade que, ao longo dos anos, ampliaram o reconhecimento do café baiano. Se antes o município de Piatã concentrava a maior parte dos destaques, hoje produtores de diversas regiões também conquistam premiações nacionais e internacionais.
Esse trabalho, de acordo com o presidente da associação, despertou o interesse de compradores estrangeiros, que visitam propriedades baianas em busca de cafés especiais:
"Hoje recebemos compradores da Coreia, do Reino Unido, da Suécia e dos Estados Unidos que vêm conhecer os produtores. Em alguns casos, a procura é maior do que a nossa capacidade de oferta."
O café produzido na Bahia alcança pontuações superiores a 80 pontos na metodologia da Specialty Coffee Association (SCA), índice que o enquadra na categoria de cafés especiais.
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Infraestrutura também preocupa o setor
Durante a entrevista, João Lopes também chamou atenção para as dificuldades logísticas enfrentadas pelo agronegócio baiano. Entre as prioridades apontadas está a necessidade de melhorias na BR-242, considerada uma das principais rotas de escoamento da produção agrícola.
"O agronegócio depende de infraestrutura. A BR-242 precisa de atenção porque é fundamental para a competitividade da produção baiana", afirmou.
O presidente da Assocafé voltou a defender o fortalecimento das entidades representativas do setor. Segundo ele, ampliar o número de associados continua sendo um desafio, mas é essencial para que os produtores tenham maior capacidade de organização e representatividade diante das demandas da cafeicultura.
"A força do produtor está no associativismo. É por meio das entidades que conseguimos defender os interesses do setor e buscar soluções para problemas que afetam toda a cadeia produtiva", completou.
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