O último dia de Octávio Mangabeira
17/06/2026 • 16:47
No último dia do seu governo, ocorrido em 30 de janeiro de 1951, Octavio Mangabeira publicou no Diário Oficial um relato do seu olhar sobre a sociedade baiana. O velho governador sabia como poucos que o poder costuma encastelar os homens, fechando-lhes os olhos com cortinas de ferro para a realidade social. Contudo, antes de entregar a administração do estado ao governador eleito Reges Pacheco, escreveu não sobre números de sua gestão, mas sobre o que sentia no coração após quase quatro anos de governo.
A Bahia que Mangabeira explicou nessa carta publicada no Diário Oficial não foi apresentada através de gráficos de obras realizadas. Ele descreveu a nossa sociedade como uma escada de quatro degraus, cada um mais distante e mais instável que o anterior.
Segundo o governador, no topo existe um punhadinho de gente, ao qual denominou, claro, de forma polida e elegante, de "ricos e abastados". Essa elite opulenta e contida não tem os impérios de ouro das metrópoles paulistana, carioca e mineira; tem fortunas de quintal, sobrados bem pintados e o conforto de quem não precisa olhar para o preço do pão de cada dia. É um grupo diminuto, que caberia em um salão apertado para uma fartura grande construída, em sua maioria, pela escravidão humana.
A elite baiana na época de Mangabeira
No degrau de baixo surge a classe do "viver bem". Uma gente que não tem "maiores haveres", mas tem o santo sossego. São empresários, comerciantes, profissionais liberais e altos funcionários públicos os que dormem os sonos dos justos em camas confortáveis e lençóis cheirosos, e acordam sem o sobressalto do boleto vencido. É um grupo pouco mais numeroso, e que faz a cidade girar com certa dignidade e pouco alarde.
Já no terceiro degrau é que a Bahia realmente ganha corpo. É o povo do batente, o operariado, o artesão, o estivador, o pequeno comerciante. Aqui, cada um se vira nos 30. “Uns melhores que outros", escreveu o governador. É a classe da sobrevivência organizada, onde o suor de cada dia garante o feijão e a mistura, e raramente tem descanso. É o motor do estado, e que preenche as ruas com a urgência de quem tem um meio de vida.
Mas, para Octavio Mangabeira, no quarto e último degrau está o grande e escandaloso problema.
Depois de todos os trabalhadores e remediados, vem a multidão, o povão. Não é um grupo, é um mar de gente que ele, como governador, confessou não saber como vive. É a miséria disfarçada de pobreza que desafia a lógica e que se torna paisagem. São os baianos que não constam na economia, mas que ocupam cada fresta da cidade, vivendo de migalhas que nem ele, como gestor, consegue explicar. Octávio Mangabeira despediu-se de seu governo tentando entender como é que tanta gente consegue existir com tão pouco — ou com nada.

Passados 75 anos dessa carta, a Bahia de Octávio Mangabeira, guardadas as devidas proporções, continua sendo maltratada pelos seus gestores, que de forma incansável fazem da Boa Terra um dos piores IDHs (Índice de Desenvolvimento Humano) do Brasil, e campeã em analfabetismo.
Triste Bahia, que Bahia é essa?
Vinicius Jacob
Vinicius Jacob é professor, pesquisador, especialista em história da Bahia. Pesquisador sênior do livro 50 anos de urbanização: Salvador da Bahia do século XIX.
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