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Cotegipe, O Barão da Bahia

09/07/202608:10Atualizado

Uma das principais ruas de Salvador, e logradouros de algumas cidades do Brasil carrega o nome “Barão de Cotegipe”. Tal prestígio não era para menos, afinal esse poderoso baiano ocupou cargos públicos em todas as esferas de poder no Império. João Maurício Wanderley foi juiz, deputado, senador, governador, banqueiro, ministro, e presidente do Conselho de Ministros, equivalente a primeiro ministro. Escravocrata convicto, lutou contra o fim da escravidão, votando contra a lei áurea, e avisou a princesa Isabel sobre os danos político da libertação dos negros. Disse o poderoso baiano: "A senhora acabou de redimir uma raça e perder o trono!". Mas, todo grande poder tem seu preço.

Foto Cotegipe, O Barão da Bahia
Foto: Foto Internet

Se as paredes de sua residência na Rua Senador Vergueiro no Rio de Janeiro falassem, elas não cantariam hinos patrióticos; elas sussurrariam valores, misturados ao tilintar de taças. Na capital do império de 1880, o sol podia até se pôr para todos, mas para a elite, o dia só começava quando o Barão de Cotegipe abria as portas de sua mansão.

Ele era um mago na arte de seduzir pelas oportunidades, valore e pelo ego. Baiano articulado, ele sabia que o destino da nação não era decidido no parlamento, mas entre goles de champanhe francês, whisky escoceses e mãos de valete. Ali, a "fina flor" da política se desarmava. Sob o som de valsas e o aroma de vinhos e charutos, as fronteiras partidárias derretia-se como velas em uma procissão. Conservadores e liberais, outrora adversários, tornavam-se cúmplices de mesa.

O cenário era de um luxo acintoso, uma bolha de cristal em meio a um país de miseráveis sustentado por mãos escravizadas e servis. Enquanto as bebesses eram distribuídas, o futuro da pátria era jogado como se fosse aposta de pôquer. O termo "lesar a pátria" não parecia um crime nos salões de sua mansão; era apenas o custo de manutenção daquela engrenagem.

A Família Imperial, fazia vistas grossas, uma espesse de silencio obsequioso. Mas a corte? Ah, essa é insaciável quando o assunto é dinheiro. Ávida por benesses, festas dantescas, regado champanhe, cargos e prestígio, ela ignorava o mal-estar da opinião pública para se lambuzar nos banquetes patrocinados pelo baiano.

No fundo, temos milhões de motivos para acreditar que o Rio de 1880 e a Brasília de 2026 guardam o mesmo DNA. Muda-se a trilha sonora — da orquestra de câmara para o som ambiente dos gabinetes climatizados e risotes paradisíacos, protistas ucranianas e russas — e troca-se as carruagens pelos jatos de banqueiros, mas o jogo permanece intacto. Ontem como hoje, o poder se consolida na mão de quem sabe servir decisões acompanhado do melhor whisky Macallan.

Vinicius Jacob

Vinicius Jacob é professor, pesquisador, especialista em história da Bahia. Pesquisador sênior do livro 50 anos de urbanização: Salvador da Bahia do século XIX.