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Comida de Rua

A boa terra nos ensina que a verdadeira gastronomia não se mede pelo preço, mas pela história que ela carrega

08/06/202612:41

Comer na rua é a liturgia diária para muitos trabalhadores. Mas também não há colarinho branco e engomado, que resista a lamber os beiços ao degustar um efó, sarapatel, um xinxim de bofe, uma galinha ao molho pardo, e tantos outros pratos populares. Quem é das antigas guarda no paladar a lembrança de Zé do Caminhão. Ele parava seu velho Ford ali na Rocinha da Montanha, perto da Praça Castro Alves, e o espetáculo começava: as panelas ariadas, eram abertas para exalar um perfume que parava o trânsito, apertando a mente de quem passava.

Foto Comida de Rua
Foto: Divulgação

Na Sete Portas, o Alagoano não deixava a desejar. Lá, o prato era "de pião", feito para quem tem fome de verdade, e que tem muita “sustança”. O mocotó gordo e tão cheio de potência que deixava os homens em suadeira e as mocinhas com os ânimos bem mais animados. Era uma culinária sem filtros, visceral, onde o tempero era a própria fome.

O antigo Mercado Modelo, era o grande templo. Tinha a tenda de Bil, ponto de encontro da fina flor do jornalismo — gente como Jehová de Carvalho e Zé Maria, que entre um furo de reportagem e uma fofoca de alcova, rendiam-se às iguarias locais. Tinha também o lendário mocotó de Dona Filomena, que curava ressaca e alimentava debates políticos entusiasmados.

Nesse fervilhar de panelas, surgiram os verdadeiros arquitetos da nossa identidade. Maria de São Pedro, santoamarense de mão cheia, era a nossa "MasterChef" ancestral, inventando pratos que misturavam o místico ao sabor. E o que dizer de Ápio Patrocínio, o Camafeu de Oxóssi? Filho do Centro Histórico, transformou seu restaurante em um palco onde o dendê e o axé caminhavam de mãos dadas, e sob as bênçãos do poder político de Antônio Carlos Magalhaes.

No final das contas, a boa terra nos ensina que a verdadeira gastronomia não se mede pelo preço, mas pela história que ela carrega em vários pontos da cidade. De Itapoã a Ribeira, entre o suor do cozinheiro e o aroma da rua, nossa terra coloca qualquer requinte internacional no chinelo. Porque aqui, a gente não apenas come; a gente celebra quem somos em cada garfada de resistência e prazer.

Vinicius Jacob

Vinicius Jacob é professor, pesquisador, especialista em história da Bahia. Pesquisador sênior do livro 50 anos de urbanização: Salvador da Bahia do século XIX.