Viva a Festa do 2 de Julho
No 2 de Julho, coração do povo baiano bate em forma de compasso, uma espécie de música que mostura samba com o rufar seco de caixas de guerra
01/07/2026 • 10:44
No 2 de Julho, coração do povo baiano bate em forma de compasso, uma espécie de música que mostura samba com o rufar seco de caixas de guerra, bombos e surdos com os sopros das Cornetas e Cornetões. É o dia em que Salvador lembra que a liberdade do Brasil não nasceu de um brado às margens de um riacho paulistano, mas sim, da bravura e da resignação de um povo que colocou os portugueses para correr a pontapés.
Hoje, quem vê a multidão nas ruas da "Mulata Velha", apelido dado a primeira capital do Brasil, gritando vivas aos heróis consagrados e anônimos — os de farda e os de pés descalços — mal consegue imaginar o que essa festa já foi um dia. Para aqueles que guardou o passado na memória, o 2 de Julho não era apenas mais um feriado festivo do nosso calendário; era o dia em que o sol parecia nascer exclusivamente para fazer brilhar o metal das filarmônicas e bandas escolares.
Nesse dia que o sol era mais brasileiro, Salvador despertava mais cedo de um sono que já tinha sido espantado semanas antes, entre os ensaios exaustivos nos pátios dos colégios públicos e particulares. Na noite anterior a esse evento cívico, os preparativos de cada estudante eram cercados de expectativas. Seguindo um ritual, meninos e meninas deitavam suas fardas sobre a cama como se fosse um manto sagrado. Não era só civismo; era a maior passarela do orgulho estudantil da Bahia.
Havia nesse dia uma disputa elegantíssima cruzando as ruas históricas da velha metrópole soteropolitana: Qual escola ostentava a harmonia mais perfeita? Qual estandarte tremulava com mais nobreza sob o céu azul da cidade da Bahia?
As lindas normalistas era um espetáculo à parte. Elas não desfilavam, flutuavam. Havia uma engenharia sagrada naquelas saias de pregas impecavelmente dobradas e passadas, balançando em um ritmo tão sincronizado que parecia ensaiado pelos deuses. Os cabelos, lindamente adornados por fitas verde e amarelo ou pelo azul, vermelho e branco das cores da bandeira da Bahia, emoldurava sorrisos que despertavam qualquer fadiga. Com seus gracejos, ao mesmo tempo inocentes e atrevidos, elas apimentavam o imaginário dos rapazes e provavam que a pátria também se constrói com doçura.
Whats App Image 2026 07 01 at 08.57.41 (2)
Ao lado delas, os moços marchavam com um orgulho blindado em calças de tergal azul ou branca. Os queixos erguidos e os peitos estufados exibiam os brasões das escolas como se fossem uma das mais altas condecorações, símbolos maiores de suas identidades estudantis. Fosse o Ginásio da Bahia, o educandário ou escola parque Carneiro Ribeiro ou o religioso Salesiano, cada passo era rigorosamente vigiado de perto pelo povo que lotavam as calçadas da Lapinha até a Praça do Dois de Julho/Campo Grande.
Como um tribunal implacável e atento, o povo baiano era um juiz rigoroso e detalhista. Notas desafinadas nos instrumentos de sopros ou um sapato que tivesse escapado à graxa não passavam despercebidos pelo olhar atento da plateia.
Assistir os tradicionais colégios Duque de Caxias e Ipiranga ganharem os calçamentos feito com pedras irregulares das ruas era ver a história da Bahia desfilar cheia de fôlego e brilho.
Whats App Image 2026 07 01 at 08.57.41
Naqueles tempos, as maiores autoridades do dia não eram os políticos de sorrisos amarelos e reputações que a poeira da história logo haveria de varrer para o ostracismo. Não! Os verdadeiros governantes da Bahia, naquele dia de festa, eram os maestros das bandas escolares e filarmônicas. Com um único gesto de suas baquetas, eles tinham o poder supremo de fazer o coração de uma multidão inteira disparar de emoção.
O 2 de Julho passa, o tempo avança, mas a lição da verdadeira independência da Bahia permanece costurada na nossa alma. É a certeza de que a liberdade e a igualdade não são propriedades dadas, mas conquistas diárias, o nosso patrimônio mais bonito.
Whats App Image 2026 07 01 at 08.57.41 (3)
Olhar para trás e lembrar o brilho daqueles desfiles nos dá a convicção de que, contra qualquer ameaça de despotismo ou tirania, o povo da Bahia sempre será o primeiro a marchar. E, se preciso for, no mesmo compasso firme daquelas velhas bandas dos colégios.
Vinicius Jacob
Vinicius Jacob é professor, pesquisador, especialista em história da Bahia. Pesquisador sênior do livro 50 anos de urbanização: Salvador da Bahia do século XIX.
Outras colunas de Vinicius
