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Fogos de artifício e o medo nos animais: um sofrimento silencioso

Milhares de animais vivem momentos de verdadeiro pânico por causa do barulho intenso durante festejos

01/06/202610:19Atualizado

Para muitas pessoas, os fogos de artifício representam comemoração, festa e alegria. Eles estão presentes em festas populares, réveillons, eventos esportivos e celebrações diversas. No entanto, enquanto os humanos observam as luzes no céu como entretenimento, milhares de animais vivem momentos de verdadeiro pânico por causa do barulho intenso provocado pelas explosões.

Foto Fogos de artifício e o medo nos animais: um sofrimento silencioso
Foto: Imagem gerada por IA / Portal Esfera

O medo de fogos de artifício é um dos problemas comportamentais mais comuns entre cães e gatos. Em alguns animais, a reação pode parecer leve, como inquietação ou tremores. Em outros casos, o desespero é tão intenso que pode provocar fugas, acidentes domésticos, automutilação e até problemas graves de saúde.

Os cães possuem uma audição extremamente sensível, muito superior à humana. Sons altos e repentinos são percebidos de forma amplificada, causando sensação de ameaça. Já os gatos, embora muitas vezes demonstrem o medo de forma mais silenciosa, também sofrem intensamente. Muitos se escondem por horas, param de comer ou apresentam mudanças bruscas de comportamento.

Durante períodos festivos, clínicas veterinárias e organizações de proteção animal registram aumento significativo no número de fugas. Assustados com os estampidos, muitos animais tentam escapar a qualquer custo, pulando muros, quebrando telas ou correndo sem direção pelas ruas. Infelizmente, muitos acabam atropelados, feridos ou perdidos longe de casa.

Além do impacto emocional, os fogos também podem causar consequências físicas. Há relatos de animais que sofrem crises cardíacas, convulsões ou agravamento de doenças já existentes devido ao estresse extremo. Animais idosos e aqueles que já possuem problemas de saúde costumam ser ainda mais vulneráveis.

O sofrimento não atinge apenas cães e gatos. Aves, cavalos e animais silvestres também são profundamente afetados pelo barulho. Em áreas próximas a matas e regiões rurais, os fogos podem provocar desorientação em pássaros, abandono de ninhos e fuga de animais silvestres. É um impacto muitas vezes invisível para quem está apenas celebrando.

Diante dessa realidade, cresce em diversas cidades brasileiras o debate sobre o uso de fogos silenciosos. Diferente dos tradicionais, eles priorizam os efeitos visuais sem provocar explosões intensas. A proposta busca equilibrar o direito à celebração com a necessidade de reduzir o sofrimento animal e também o desconforto de pessoas sensíveis ao barulho, como idosos, autistas e pacientes hospitalares.

Enquanto a conscientização avança, os tutores podem adotar medidas importantes para proteger seus pets em dias de fogos. Uma das principais recomendações é manter os animais dentro de casa, em ambiente seguro e fechado. Portões, janelas e telas devem ser revisados para evitar fugas.

Também ajuda criar um espaço confortável, onde o animal se sinta protegido. Alguns cães preferem ficar em locais menores, como perto da cama do tutor ou em cantinhos mais silenciosos da casa. Sons ambientes, televisão ligada ou música suave podem ajudar a reduzir a percepção do barulho externo.

Outra orientação importante é evitar punições ou broncas. O medo não é “frescura” nem “manha”. Trata-se de uma reação involuntária do organismo diante de uma situação interpretada como ameaça. O ideal é transmitir segurança e tranquilidade ao animal.

Em casos mais severos, o acompanhamento veterinário pode ser necessário. Alguns animais precisam de treinamento comportamental ou até medicação específica para períodos de grande exposição aos fogos. Nunca se deve medicar um pet por conta própria.

Nos últimos anos, o tema ganhou mais espaço nas discussões sobre bem-estar animal. Isso mostra uma mudança importante na forma como a sociedade enxerga os pets. Hoje, eles são reconhecidos não apenas como animais domésticos, mas como membros da família, capazes de sentir medo, ansiedade e sofrimento emocional.

Repensar hábitos tradicionais também faz parte da evolução social. Celebrar não precisa significar causar dor a outros seres vivos. Pequenas mudanças podem fazer grande diferença para milhares de animais que, em noites de fogos, vivem momentos de puro terror.

Talvez a verdadeira comemoração seja justamente aquela que consegue incluir respeito, empatia e cuidado — não apenas com as pessoas, mas também com aqueles que dividem a vida conosco em silêncio e lealdade.

Miúcha Furtado

Miúcha Furtado é graduada em Medicina Veterinária pela Universidade Federal da Bahia e pós graduada no programa de especialização sob forma de Residencia no setor de Clínica Médica de Pequenos Animais com Ênfase em Oftalmologia Veterinária.