O que um ponto de ônibus em Salvador revela sobre a democracia
07/10/2026 • 15:00 • Atualizado
A Avenida Antônio Carlos Magalhães, uma das mais movimentadas de Salvador, é cenário de encontros que, à primeira vista, parecem comuns. Mas, para quem observa o cotidiano com atenção, até a espera por um ônibus pode despertar perguntas que vão muito além daquele momento.
Em um ponto próximo a uma conhecida catedral da região, três mulheres que aparentavam ser da mesma família aguardavam o transporte. Duas tinham cabelos longos e grisalhos, saias compridas e blusas fechadas. A terceira, mais jovem, destoava: cabelos curtos e roxos, calça bege larga, colar vermelho de conchas e óculos escuros.
Em determinado momento, outra mulher se aproximou e a jovem respondeu com um sorriso. As duas mais velhas fizeram expressões que interpretei como reprovação. Não ouvi a conversa e não conhecia aquelas pessoas. Não sei o que pensavam. Ainda assim, a cena me deixou uma pergunta: quantas vezes diferenças entre gerações e visões de mundo se transformam em motivo de julgamento dentro de uma família? Será que aqueles que hoje parecem tão seguros de suas convicções também já foram jovens que desafiaram as regras de alguém?
O perigo de ter certeza demais
Na política, esse mecanismo ganha proporções ainda maiores. Quem já tentou conversar com alguém profundamente convencido das próprias opiniões sabe que argumentos nem sempre são suficientes para mudar uma perspectiva.
Um estudo publicado em 2019 na Current Biology, com participação de pesquisadores ligados à University College London, encontrou dificuldades de avaliação do próprio desempenho entre participantes com posições políticas mais radicais, tanto à esquerda quanto à direita.
O resultado não significa que pessoas radicalizadas sejam incapazes de mudar de opinião. Mas levanta uma questão: o que acontece quando a confiança nas próprias certezas é maior do que a disposição para examiná-las?
Em ambientes polarizados, admitir um erro pode parecer fraqueza ou traição ao próprio grupo. Assim, uma informação pode ser rejeitada não pelo que diz, mas por quem a diz. Se vem do adversário, é descartada. Se confirma aquilo em que já acreditamos, é aceita com menos questionamentos.
É aí que a convicção pode deixar de ser apenas uma opinião e se transformar em obstáculo ao diálogo.
Quando os extremos se encontram
Norberto Bobbio, ao discutir direita e esquerda, também ajuda a pensar sobre os extremos políticos. Isso não significa dizer que direita e esquerda sejam iguais. Suas origens, propostas e tradições são diferentes.
A aproximação aparece quando grupos distintos passam a compartilhar práticas como a intolerância à divergência, a desqualificação sistemática dos adversários e a rejeição dos limites da democracia.
A democracia não está ameaçada porque existem conservadores, progressistas, liberais ou socialistas. O conflito entre ideias faz parte dela. O risco surge quando o adversário deixa de ser alguém com quem discordamos e passa a ser tratado como alguém que precisa ser silenciado.
A autocrítica, portanto, precisa valer para todos. Reconhecer o autoritarismo no outro é importante, mas também precisamos enxergá-lo quando aparece entre aqueles com quem concordamos.
A multidão também pode estar errada
Gustave Le Bon, em Psicologia das multidões, refletiu sobre como o comportamento individual pode mudar quando estamos inseridos em uma coletividade. Pertencer a um grupo pode trazer acolhimento e identidade, mas também pode criar pressão para repetir opiniões e defender posições sem examiná-las.
Em tempos de polarização, até a dúvida pode ser tratada como fraqueza. Mas pensar criticamente também significa admitir a possibilidade de estar errado.
Volto, então, àquela cena no ponto de ônibus. Talvez as três mulheres fossem conservadoras. Talvez não. Talvez a expressão das duas mais velhas não tivesse qualquer relação com a jovem. Não tenho como saber.
O que ficou foi a pergunta: quantas vezes julgamos alguém antes mesmo de conhecer sua história?
Eu julguei.
E a democracia não parte de um julgamento. Ela se constrói nesses pequenos encontros, na disposição de ouvir antes de condenar e na capacidade de conviver com diferenças sem transformá-las em hostilidade.
Uma sociedade democrática não precisa que todos pensem da mesma maneira. Precisa de pessoas capazes de discordar sem abrir mão da liberdade, do diálogo e do respeito por quem pensa diferente.
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Domynique Fonseca
Domynique Fonseca é jornalista formada pelo Centro Universitário Anísio Teixeira (UniFAT) e chefe de jornalismo do Portal Esfera. Feirense radicada em Salvador, escreve sobre a Bahia a partir de seus acontecimentos, personagens e histórias.
