Historiador volta a contestar lenda sobre escravizados no Mercado Modelo
Pesquisador afirma que não há registros históricos que sustentem a narrativa
Por: Domynique Fonseca
01/06/2026 • 13:03 • Atualizado
O professor, historiador e pesquisador Vinícius Jacob (@bauhistoricodabahia) voltou a comentar uma das lendas mais conhecidas envolvendo o Mercado Modelo durante participação no programa Portal Esfera no Rádio, apresentado por Luis Ganem na 97,5 FM, nesta segunda-feira (1º). Ele reafirmou que a estrutura foi concebida para funcionar como alfândega da Bahia e tinha como principal finalidade o armazenamento e a fiscalização de mercadorias que chegavam ao estado.
“Foi construída a muito custo para ser a alfândega da Bahia e não tinha nada de armazenamento de escravizados. Ali era para armazenar material que chegava da Europa, principalmente azeite”, afirmou.
Jacob explicou que a área subterrânea possuía características ideais para conservar determinados produtos. De acordo com ele, a umidade do ambiente permitia o armazenamento de mercadorias perecíveis até que fossem distribuídas para a cidade e regiões vizinhas.
“A parte interna, subterrânea, como a umidade era muito boa, abrigava alimentos de primeira qualidade que eram distribuídos para a cidade em torno. Ele nunca abrigou escravizados”, disse.
Durante a entrevista, o historiador destacou que a movimentação de cargas no período era concentrada nos trapiches instalados na região portuária de Salvador. Segundo ele, esses espaços privados dominavam o comércio da época.
“Esse trabalho era feito pelos trapiches, que eram uma máfia pesada. Toda mercadoria que chegava a Salvador passava pelos trapiches. Como tinha muita corrupção e muita coisa era desviada, o governo resolveu construir o que hoje é o Mercado Modelo para ter o controle dessas mercadorias”, explicou.
O pesquisador também afirmou que a implantação da antiga alfândega enfrentou resistência de grupos econômicos que controlavam o comércio local.
“A máfia não deixava sair do papel. Até boicotaram ao máximo a inauguração da alfândega da Bahia para poder manter o controle de toda a mercadoria”, relatou.
Ao comentar as histórias de assombrações associadas ao subsolo do Mercado Modelo, Jacob foi categórico ao descartar qualquer comprovação histórica sobre o tema.
“Ali nenhum escravo ficou preso. Não tem alma penada, não tem nada disso que o pessoal fala”, declarou.
Além da discussão sobre as lendas, o historiador ressaltou a importância histórica da região do Centro Histórico de Salvador. Segundo ele, o entorno do mercado foi ocupado por comerciantes e teve papel fundamental no desenvolvimento econômico da capital baiana.
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“Ali é uma das áreas mais antigas do Centro Histórico. Moravam muitos comerciantes, pequenos e médios comerciantes. Grandes blocos de carnaval, como o Coruja, nasceram naquela região”, destacou.
Jacob também explicou a origem do nome do bairro Santo Antônio Além do Carmo.
“Além do Carmo vem justamente porque aquela área ficava além das Portas do Carmo, que marcavam um dos limites da cidade”, concluiu.
Símbolo do turismo baiano, o Mercado Modelo continua cercado por histórias e mistérios que alimentam o imaginário popular. Para o pesquisador, entretanto, os documentos históricos apontam para uma trajetória ligada ao comércio e à atividade portuária, sem registros que sustentem algumas das narrativas mais conhecidas sobre o local.
