Revolta dos Malês: Pesquisador aponta disputas e releituras da história
Em entrevista ao Portal Esfera no Rádio, Vinicios Jacob comentou bastidores
Por: Marcos Flávio Nascimento
15/05/2026 • 16:20
Durante entrevista ao programa Portal Esfera no Rádio desta sexta-feira (15), apresentado por Luis Ganem, transmitido na Rádio Itapoan (97,5 FM), o professor de História e pesquisador Vinicios Jacob analisou a Revolta dos Malês, um dos episódios mais marcantes da história baiana, e defendeu que o levante ainda é cercado por interpretações simplificadas e apagamentos históricos.
Ao comentar o episódio ocorrido em Revolta dos Malês, Jacob afirmou que o movimento tinha uma organização interna complexa e era liderado por africanos muçulmanos alfabetizados, o que, segundo ele, representava uma ameaça à ordem escravista da época.
“Os malês eram poucos em número, mas concentravam liderança porque sabiam ler, escrever e tinham uma formação diferenciada. Quem detém o conhecimento, detém também controle social”, disse.
Leitura histórica e disputas de poder
Segundo o pesquisador, o levante tinha como objetivo derrubar a estrutura de poder local e avançar para outras regiões da Bahia, especialmente o Recôncavo Baiano, onde estavam concentradas famílias ligadas à elite agrária. Ele destacou que o conflito também envolvia tensões raciais internas, em um contexto de escravidão e hierarquias sociais rígidas:
“O objetivo era tomar Salvador, seguir para o Recôncavo e romper com a estrutura social da época. Foi uma revolta que assustou a elite porque atacava diretamente o sistema."
Ainda segundo Jacob, o episódio foi monitorado pelas autoridades antes mesmo de acontecer. Para ele, a repressão foi rápida e brutal, com execuções que teriam sido omitidas em parte da historiografia tradicional.
“Muitos foram executados depois do confronto. Existe documentação que mostra isso e que por muito tempo ficou fora do debate público”, afirmou.
Personagens esquecidos e história recontada
Na conversa, Vinicios Jacob também comentou o apagamento de figuras históricas como Luiz Gama, apontado por ele como um dos nomes centrais na luta antirracista no Brasil. O pesquisador afirmou que parte da memória nacional foi construída a partir do olhar das elites:
“Toda sociedade escolhe quem vira herói. Durante muito tempo, quem escrevia a história eram as famílias abastadas. Isso definiu quem seria lembrado e quem seria silenciado."
Para Jacob, novas pesquisas e a descoberta de documentos têm provocado revisões importantes sobre episódios históricos da Bahia. Ele cita o que chama de “história das migalhas”, conceito baseado em relatos menores e documentos familiares que ajudam a reconstruir narrativas apagadas.
“A verdade histórica não é fixa. Quando novos documentos aparecem, o contexto pode mudar. A história está sempre sendo revisitada”, concluiu.
Relacionadas
