Entre mito e realidade: a história das “cegonhas” que marcaram Feira de Santana
Ação de grupo que acolhia crianças abandonas expõs dilemas sociais e discussão sobre legalidade
Por: Domynique Fonseca
25/03/2026 • 14:00
Foi no folclore escandinavo que a cegonha, uma ave doce e protetora, como uma mãe, ganhou seu papel, que passou a ser difundido pelo mundo inteiro. Símbolo ancestral de fertilidade, nascimento e cuidado materno, coube ao pássaro ser o portador das boas-novas ao entregar os recém-nascidos às suas mães.
Do outro lado do mundo, em Feira de Santana, no centro-norte baiano, esse simbolismo ganhou contornos reais e controversos entre as décadas de 1980 e 1990. Segundo relatos, um grupo secreto de mulheres, conhecido como Cegonhas da Noite, teria sido responsável por intermediar a entrega de cerca de 1.100 recém-nascidos abandonados para famílias da cidade.
A atuação ocorria de forma clandestina: bebês eram deixados durante a madrugada, em caixas ou cestos, nas portas de casas previamente selecionadas. As mulheres recolhiam crianças em situação de abandono ou vulnerabilidade e as encaminhavam para famílias com melhores condições financeiras, sem qualquer trâmite legal.
A prática foi interrompida após a intervenção da Justiça no início dos anos 2000, que à época ameaçou responsabilizar criminalmente os envolvidos.
"A cegonha bateu na porta"
Se o mito da cegonha, a ave, pode ser encarado como sabedoria popular e ficção, a realidade das cegonhas feirenses ajuda a elucidar as histórias de alguns dos bebês que encontraram um novo lar em seus cestos.
Uma reportagem do Fantástico (Rede Globo) à epóca, manteve o anonimato das mulheres, que seriam 4, de classe média e com filhos adotivos, que entregavam os bebês nas portas das casas, tal como as cegonhas das histórias infantis.
Elas avaliavam a situação financeira, a vida religiosa e até mesmo a conduta moral dos futuros pais em uma espécie de triagem.
Um dos casos é o da massoterapeuta Ana Cláudia Rolim, de 32 anos, que só descobriu sua origem há cerca de cinco anos.
“Eu cresci acreditando em outra versão. Só mais tarde soube que tinha sido deixada na porta da casa dos meus pais”, relata.
Apesar da revelação, ela afirma que o impacto foi menor do que poderia se imaginar: “Não mudou tanto o que eu já entendia sobre minha história, mas mudou minha visão sobre amor e vida.”
Arquivo Pessoal/Ana Cláudia
Ana conta que seus pais adotivos não podiam ter filhos e recorreram à rede informal que operava na Princesa do Sertão para viabilizar a adoção. Segundo ela, intermediários eram responsáveis por fazer a ponte entre as famílias e o grupo, mantendo o anonimato das chamadas “cegonhas”.
“Minha vida teria sido completamente diferente. Tive acesso à educação, estrutura e oportunidades que talvez não teria em outra realidade”, afirma.
Apesar de reconhecer a ilegalidade do processo, a massoterapeuta enxerga a prática sob uma perspectiva pessoal: “Sei que existe toda uma questão por trás., mas para mim foi um ato de solidariedade”
Arquivo Pessoal/ Ana Cláudia
Ausência do Estado ou sororidade?
Para a assistente social Bárbara Teixeira, o surgimento de iniciativas como essa estão diretamente ligadas ao contexto da época. Segundo ela, havia um cenário de vulnerabilidade social extrema, com elevado número de crianças abandonadas e pouca estrutura estatal para acolhimento.
“A rede atuava onde o Estado não conseguia chegar. Era uma resposta informal a uma demanda urgente”, explica. Ela ressalta, no entanto, que essas ações ocorriam sob sigilo justamente para evitar sanções legais, ainda que parte da sociedade enxergasse a prática como um gesto de caridade.
A especialista também aponta que, embora possa ser interpretada como uma forma de apoio entre mulheres e uma rede de cuidado e proteção, a prática levanta questões importantes.
“A sororidade existe quando há cuidado coletivo, mas deixa de existir quando se ignora a vulnerabilidade da mulher que não pôde exercer a maternidade”, pondera.
Tráfico de pessoas?
A atuação das "Cegonhas da Noite", que subverteu o folclore escandinavo e passou a ser parte da história oral de Feira de Santana, foi encerrada quando um juiz ameaçou prender quem fizesse parte do grupo, apontando a sua ilegalidade.
A advogada Luísa Dultra explica que, mesmo antes da criação do Estatuto da Criança e do Adolescente, já existiam normas que regulamentavam a adoção. Com a consolidação do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), em 1990, passou a ser garantido que toda criança tem direito à identidade, à convivência familiar e ao acompanhamento judicial no processo de adoção.
“A entrega clandestina viola direitos fundamentais, como o acesso à origem biológica e o controle do Estado sobre a adoção, além de abrir margem para crimes mais graves”, afirma a advogada. Dependendo do caso, a prática pode ser enquadrada como subtração de incapaz ou até tráfico de pessoas.
Outro ponto destacado é o impacto na vida dessas crianças, atualmente adultas. A ausência de registros formais pode dificultar o acesso à própria história e gerar insegurança jurídica e emocional.
Adoção no Brasil
Atualmente, o Brasil tem 4.935 crianças e adolescentes aptos à adoção, enquanto 35.622 pretendentes estão habilitados no sistema. Mais da metade desses interessados está concentrada nas regiões Sudeste e Sul, e a maioria demonstra preferência por crianças de até 8 anos, sendo a faixa entre 2 e 4 anos a mais procurada. Em paralelo, 1.398 crianças e adolescentes estão disponíveis para busca ativa. Os dados fazem parte do Painel de Acompanhamento do Sistema Nacional de Adoção (SNA), atualizado diariamente.
O sistema brasileiro de adoção funciona atualmente por meio de cadastro nacional e acompanhamento judicial, priorizando o interesse da criança. Ainda assim, especialistas apontam desafios, como a lentidão dos processos e o descompasso entre o perfil das crianças disponíveis e o desejado pelos adotantes.
De acordo com a assistente social, houve uma mudança de paradigma: “Antes, o foco era o desejo de quem queria adotar. Hoje, é o direito da criança de ter uma família preparada e um processo seguro.”
Diante dos avanços, a história das “Cegonhas da Noite” ainda provoca reflexões. Entre relatos de gratidão e questionamentos legais, o caso evidencia como redes informais de apoio surgem em contextos de ausência do Estado, e como essas soluções, embora carregadas de intenção social, podem gerar consequências complexas e duradouras.
