“A TURMA”
18/05/2026 • 18:42
Um banco que possui uma “Turma” para a prática de atos considerados ilegais não pode ser uma empresa do comércio financeiro. Segundo a Policia Federal (PF) - que denominou de “A Turma” o grupo criminoso e a rede de espionagem do Banco Master-, essa organização tinha como objetivo intimidar e ameaçar autoridades, adversários, jornalistas, concorrentes e os que investigavam ou noticiavam as irregularidades do banco.
Além disso, o grupo buscava acessar inquéritos sigilosos na PF para antecipar ações e blindar o banco e seus dirigentes de medidas judiciais. O núcleo do grupo incluía um "sicário", alguns policias federais da ativa e outros já aposentados.
A imprensa denunciou Anderson Wander da Silva Lima, agente da PF lotado na Superintendência do Rio de Janeiro e apontado como o braço direito de Marilson Roseno — líder da Turma e suspeito de realizar consultas indevidas em sistemas e fornecer dados sigilosos mediante pagamentos. Outro integrante do grupo citado é a delegada federal Valéria Vieira Pereira da Silva, lotada em Minas Gerais e suspeita de consultar inquéritos e repassar informações sigilosas sobre o caso.
O policial aposentado, Sebastião Monteiro Júnior, pertencia ao núcleo operacional do sistema e era responsável por realizar monitoramento de alvos.
A PF investiga se essa turma utilizava a estrutura da corporação para obter dados confidenciais, ameaçar desafetos e realizar monitoramento ilegal para Daniel Vorcaro. O agente Anderson, em particular, é suspeito de utilizar o acesso privilegiado a bancos de dados da PF enquanto estava na ativa para beneficiar o grupo.
Toda essa gente teria auxiliado Vorcaro na tentativa de eliminar quem pudesse atrapalhar as fraudes financeiras de aproximadamente R$ 40 bilhões, envolvendo lavagem de dinheiro, gestão temerária, uso de institutos de previdência para captar recursos e ligações com outros fundos suspeitos. Tudo isso foi apurado pela PF, que acabou descobrindo que esses agentes simulavam assaltos para agredir jornalistas, a exemplo de Lauro Jardim, do jornal O Globo.
Focada em obter vantagens de qualquer natureza mediante a prática de crimes graves, essa milícia pessoal era o núcleo de inteligência de Daniel Vorcaro, que fazia levantamentos clandestinos e obtinha informações sigilosas para proteger seus interesses. A investigação chegou a descobrir ameaças de morte em abordagem a funcionários em Angra dos Reis. O pai do banqueiro, Henrique Vorcaro, é apontado como o financiador do grupo.
A PF identificou dois núcleos principais dentro do Master: "A Turma", especializada em ações presenciais e ameaças, e "Os Meninos" (núcleo cibernético, hackers e ataques digitais). As investigações apontam o uso de métodos paralelos para "moer" opositores ou pessoas que atrapalhassem os negócios do Master e do seu proprietário, Daniel Vorcaro.
Aí estava incluído a contaminação da máquina pública com a participação de autoridades, políticos, policiais da ativa, da reserva e alguns membros do Poder Judiciário. Investigações em andamento conseguiram fazer prisões e apreensões, autorizadas pelo Supremo Tribunal Federal (STF).
O Master, cujo patrimônio inicial era de R$ 200 milhões, passou para R$ 4,7 bilhões entre 2019 e 2024, seguindo sob intenso escrutínio da Polícia Federal e do Poder Judiciário. No seu campo de relações contou com o apoio de autoridades de todos os poderes.
Segundo as investigações, nessas relações estão o presidente Lula, o presidente da Câmara, Hugo Motta e o ministro do STF, Alexandre de Moraes. Em outras conexões são citados Guido Mantega, ex-ministro de Lula, Ricardo Lewandowski e o ministro do STF, Dias Toffoli.
O ministro André Mendonça solicitou levantamento de autoridades com foro no STF potencialmente envolvidas. Na defesa do Master, a senhora Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes, aparece como advogada do Master por R$ 139 milhões.
O presidente do Banco Central (BC), Gabriel Galípolo, teve seu nome citado nas investigações, mas negou conversas sobre o banco. São também citados o empresário Henrique Moura Vorcaro (pai de Daniel), preso recentemente, o senador Ciro Nogueira e o Banco de Brasília (BRB).
A lista é enorme, não cabendo num simples artigo. As Investigações da PF apontam para a teia intricada dos negócios do banqueiro agora envolvendo o senador Flávio Bolsonaro, candidato pela direita a presidente da República e o seu irmão Eduardo Bolsonaro, ex-deputado federal, além da denúncia de que o presidente Lula teria aconselhado Vorcaro a não vender o Banco Master ao BRB, e que esperasse a nomeação do atual presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo.
O lamaçal é enorme, garantido pela impunidade, pois a corrupção no Brasil é, atualmente, uma cláusula pétrea de nossa Constituição.
Luiz Holanda
Luiz Holanda (ou Luiz de Holanda Moura) é um reconhecido jurista, professor universitário e advogado baiano, com vasta experiência em gestão pública e ensino jurídico. É autor de livros e artigos, além de ter sido conselheiro da OAB/BA e ocupado cargos importantes na administração pública.
