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O nascimento da Cidade do Salvador e seu primeiro traçado arquitetônico

Prestes a completar 477 anos, Salvador segue crescendo ao longo dos séculos

23/03/202613:17

A fundação da Cidade do Salvador em 1549 aconteceu no momento em que a metrópole portuguesa resolveu efetivamente colonizar as terras que tomou posse em 1500 com a chegada de Cabral. Com a crise do comércio com o Oriente, as ameaças estrangeiras sobre seu território e o isolamento das capitânias hereditárias em relação a Portugal a coroa passou a participar diretamente da obra colonizadora implantando o governo geral e escolheu para sua sede a capitania da Bahia. Essa escolha deveu-se a interesses administrativos, pois a capitânia da Bahia localizava-se num ponto médio do nosso litoral, o que facilitava a comunicação com as demais capitânias. 

Planta da Fortaleza do Salvador, em 1549
Foto: SAMPAIO, Theodoro. História da Fundação da cidade do Salvador. P.185.

É nesse contexto que nasce a cidade do São Salvador com a chegada de Tomé de Sousa, primeiro governador geral do Brasil, em 29 de março de 1549 com a missão de fundar a cidade de acordo com as determinações do rei D. João III expresso no Regimento de 17 de dezembro de 1548: “Vendo eu quanto serviço de Deus e meu é conservar as terra do Brasil ordenei ora de mandar nas ditas terras fazer uma fortaleza e povoação grande e forte na baía de Todos os Santos...”

Vieram com ele os seis primeiros jesuítas que aportaram ao Brasil, chefiados por Manoel da Nóbrega. Soldados e degredados completavam a expedição de três naus, duas caravelas e um bergantim que trouxeram aproximadamente 1000 pessoas. Chegando ao sítio da antiga Vila do Pereira, na enseada do Porto da Barra, desembarcou o governador e logo deu começo a edificação e fortificação da cidade do Salvador. Numa terra cobiçada por franceses e atacada por índios, convinha situa-la em terreno escarpado, mais no interior do golfo para melhor defesa e proteção aos navios. 

Para a construção da cidade fortaleza foi nomeado pelo rei de Portugal o mestre de obras Luís Dias que chegou com Tomé de Souza acompanhado de outros artífices. Dias é considerado o primeiro arquiteto do Brasil e conforme as orientações dadas no Regimento de 1548 a projetou nos moldes das cidades medievais da Europa Ocidental, com uma praça da qual partiam ruas longitudinais e transversais. Ele a delimitou com duas portas: a do Sul, Porta de Santa Luzia, na altura do topo da atual Praça Castro Alves; e a do Norte, Porta de Santa Catariana, no inicio da antiga rua da Misericórdia. Com o crescimento da cidade o limite do muro se ampliou e a porta do sul foi para o São Bento, ficando conhecida como Porta de São Bento. A do Norte mudou-se para o Carmo: Porta do Carmo. Essa cidade foi toda murada e arrodeada de torres para defesa de seu território.

No primeiro desenho da cidade ela tinha uma praça quadrada, que abrigava a Casa dos Governadores, atual Palácio Rio Branco e a Câmara dos Vereadores. Dessa praça saíam as primeiras ruas de Salvador: Direita do Palácio ou dos Mercadores (atual rua Chile) e rua da Ajuda e as transversais do Tira Chapéu e das Vassouras. Para chegar até a praia, na Cidade Baixa, tinha dois caminhos: um ao sul, a ladeira da Igreja de Nossa Senhora da Conceição, e outro ao norte, a ladeira da Fonte do Pereira. Saindo dos limites da cidade pela porta sul seguia-se o caminho por via terrestre para a Vila Velha do Pereira, atual Porto da Barra e a Graça. Saindo pela porta norte chegava-se ao terreiro do Colégio dos Padres Jesuítas, atual terreiro de Jesus e a ladeira do Monte Calvário ou dos Frades Carmelitas.   

Palácio do Governo da Bahia, após bombardeio pelo Governo Federal / Foto: Arquivo Nacional

Palácio do Governo da Bahia, após bombardeio pelo Governo Federal / Foto: Arquivo Nacional


Esse traçado inicial da cidade permanece inalterável aproximadamente por três décadas. Com o crescimento da população o cronista Gabriel Soares de Souza, por volta de 1583 já traz uma nova delimitação para a Salvador. Ela já passou a ter duas praças, a da Casa dos Governadores e a do Terreiro de Jesus, e três ruas que as conduziam à Igreja da Sé, prosseguindo até o Terreiro de Jesus. A que seguia pela direita conduzia ao Mosteiro de São Bento que estava em construção. Nesse traçado estreito estava delimitada a cidade. Dentro desse espaço sobressaíam os prédios da Câmara dos Vereadores, do Governo, da Alfândega, do Colégio dos Padres Jesuítas e as Igrejas da Ajuda e da Sé. 

Na destacada condição de cidade-fortaleza, abrigando o mais movimentado porto da América portuguesa banhado pelas águas da Baía de Todos os Santos e toda guarnecida por fortes que a protegiam de invasões estrangeiras, a cidade do Salvador passou a se expandir em dois planos: Cidade Baixa, bairro da Praia, formando uma rua paralela ao mar à direita da Ribeira das Naus e dos sobrados dos comerciantes; e Cidade Alta, com os primeiros bairros da cidade: São Bento, Palma, Desterro, Saúde e Santo Antônio Além do Carmo. No final do século XVIII, com o censo de eclesiástico de 1780, a população era de 39.209 habitantes.  

A cidade do Salvador foi crescendo ao longo dos séculos fisicamente e populacionalmente. Se expandiu em todas as direções extrapolando os limites das águas da Baía de Todos os Santos e foi crescendo rumo a orla banhada pelo Atlântico. Passados 477 anos de sua fundação a jovem senhora Cidade do Salvador, com quase três milhões de habitantes, ainda preserva, através do seu rico patrimônio histórico, o cenário dos seus primeiros séculos de existência.

Navegando pelas águas tranquilas da bela baía de Todos os Santos podemos vislumbrar ao longo da travessia os fortes, as igrejas, torres, conventos e casarões que são testemunha ocular do crescimento dessa histórica cidade cujo maior patrimônio é sua gente composta pela união das três principais etnias que formam o povo brasileiro. Foram eles, indígenas, portugueses e africanos que foram os principais responsáveis pela construção e formação da bela cidade do Salvador e de sua diversidade cultural ao longo dos séculos. 

Álvaro Dantas Jr.

Historiador, professor universitário e escritor. Doutor em Difusão do Conhecimento pela UFBA. Foi Presidente do Instituto Genealógico da Bahia. Atualmente é Coordenador do Centro de Documentação e Memória da Universidade Católica do Salvador, sócio do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia e membro da Academia Baiana de Educação.