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A Diocese de São Salvador da Bahia, a primeira do Brasil

475 anos de Fé, História, Cultura e Tradição

09/04/202617:29Atualizado

Nascido a sombra da Cruz, quando Thomé de Souza aporta na Baía de Todos os Santos, em 1549, no mesmo instante em que iniciava o sistema defensivo da área escolhida, fazendo levantar muros, trata logo de erigir locais de oração: na Cidade Baixa, a primitiva Igreja da Conceição da Praia e, na parte alta, dentro da cidadela, a primeira Sé, feita de taipa e coberta de palha de Ouricuri. 

Foto A Diocese de São Salvador da Bahia, a primeira do Brasil
Foto: Divulgação/Arquidiocese de Salvador

Aí, nessa singela igreja, foram prestados os primeiros serviços religiosos pelos padres da comitiva aos homens encarregados de fundar a capital da colônia, havendo o testemunho de Gabriel Soares de Souza, em 1584, em relação ao sítio onde a mesma foi erigida: 

“E ao longo dessa rua lhe fica outra muito assentada, também toda povoada de lojas de mercadores, e no topo desta está uma formosa igreja de Nossa Senhora d’Ajuda com sua capela de abóboda; no qual sitio, no princípio dessa cidade esteve a Sé”. 

A igreja de Nossa Senhora d’Ajuda, de 1912, localizada na rua da Ajuda, no Centro Histórico de Salvador / Reprodução-Wiikipedia

A igreja de Nossa Senhora d’Ajuda, de 1912, localizada na rua da Ajuda, no Centro Histórico de Salvador / Reprodução-Wiikipedia


A Sé de palha, construída pelos primeiros povoadores, tinha a invocação do Salvador e, já em 1551, o monarca D. João III demonstrou ao Papa Júlio III o desejo de que se criasse e levantasse em Igreja Episcopal, a Catedral e a Igreja da Cidade da Capitânia da Bahia de Todos os Santos, em função da instituição do governo geral e construção de sua capital em Salvador. No dia 25 de fevereiro do referido ano, portanto 475 anos atrás, atendendo a solicitação do rei de Portugal, o pontífice erigiu canonicamente a Diocese de São Salvador da Bahia, a primeira do Brasil, promulgando a bula Super Specula Militantis Eclesiae, na qual: 

  • Concedeu à Igreja Matriz de São Salvador o título de Igreja Catedral de São Salvador;
  • Estabeleceu os limites da nova diocese, abrangendo a Cidade do Salvador e os termos e territórios, as fortalezas, vilas e lugares;
  • Desligou a Diocese de São Salvador da Bahia da jurisdição de Funchal, Ilha da Madeira, tornando-a subordinada do Arcebispado de Lisboa;
  • Designou Pero Fernandes Sardinha, para primeiro bispo da recém criada Diocese de São Salvador. 

Só com a criação da Diocese Primacial do Brasil é que o primeiro bispo, julgando a igreja da Ajuda, coberta de palha, pequena, solicitou novo terreno para construção de uma igreja de “pedra e cal” para ser a sede da nova Sé e no segundo semestre de 1552 as obras da igreja já tinham se iniciado. O local escolhido para a sua edificação, foi fora dos muros da cidade, a cavaleiro da Baía de Todos os Santos e seu Recôncavo.

Bula Super Specula Militantis Eclesiale promulgada pelo Papa Júlio III criando a Diocese de São Salvador da Bahia, a primeira do Brasil, em 25.02.1551. / Reprodução: República Portuguesa

Bula Super Specula Militantis Eclesiale promulgada pelo Papa Júlio III criando a Diocese de São Salvador da Bahia, a primeira do Brasil, em 25.02.1551. / Reprodução: República Portuguesa


Por falta de fontes documentais não se sabe exatamente quanto tempo durou a edificação da Sé da Bahia, em seu sítio extramuros, no local hoje denominado Praça da Sé, na Cidade do Salvador. O fato é que se tornou, segundo cronistas da época, no decorrer dos séculos, “o mais suntuoso, e magnifico templo de todos os da América” (VIDE, Sebastião, p. 597).

Paralelamente a construção do novo templo que durou décadas e séculos foi se estruturando a organização eclesiástica do Brasil que passou a ser dividido em freguesias ou paróquias, que contavam sempre com uma igreja matriz. Várias freguesias formavam uma diocese, que tinha sede onde funcionava o bispado, desde que foi criado, em 1551, o primeiro bispado do Brasil.

Antiga Sé da Bahia (Primacial do Brasil) em 1928, cinco anos antes de sua demolição / Reprodução:Wikipedia

Antiga Sé da Bahia (Primacial do Brasil) em 1928, cinco anos antes de sua demolição / Reprodução:Wikipedia


A partir daí surgiram as primeiras freguesias da cidade do Salvador, como a da Sé, da Conceição da Praia, do Pilar, do Carmo e Santo Antônio Além do Carmo, Passo, Santana, São Pedro e Vitória. A delimitação dessas freguesias vai dar origem e delimitar os bairros de Salvador que vão surgindo no final do século XVIII e começo do XIX e permanecem até hoje.

475 anos de história

A trajetória da igreja nos seus 475 anos de presença na Bahia e no Brasil está entrelaçada com a história da administração governamental da América portuguesa. Aos reis de Portugal foi concedido o direito do Padroado, que na prática significava um controle da Igreja além-mar pelos monarcas portugueses, portanto, além de nomear os governadores gerais e todas as autoridades civis o rei tinha o direito de indicar os nomes dos sacerdotes que iriam assumir as paróquias e bispados.

Terra de missões e de evangelização desde o século XVI, o Brasil foi colonizado pela dupla ação do Estado e da Igreja, estreitamente associados. No Império o catolicismo se tornou a religião oficial do Estado.

Essa intrínseca relação aliada a fé simples do povo de Deus se materializou ao longo da história do Brasil e de modo muito especial na Bahia na construção de igrejas, capelas e conventos dos padres jesuítas e das ordens religiosas que aqui foram chegando como os beneditinos, carmelitas e franciscanos e que tiveram como recursos para construir os seus templos sagrados o lucro da economia açucareira que até meados do século XVIII fez de Salvador a cidade mais rica e prospera da América Portuguesa, além de contarem com o erário régio cujo sistema do Padroado garantia a construção, conservação e decoração artística das naves e altares.

Durante quase 500 anos a Igreja Católica se fez presente ao longo da história da cidade do Salvador. No dia 16 de novembro de 1676, portanto a 350 anos atrás, o Papa Inocêncio XI eleva a diocese de São Salvador a condição de arquidiocese, se tornando a primeira e única do Brasil até 1892, quando é criada a segunda arquidiocese brasileira, sediada no Rio de Janeiro.

De lá para cá a igreja foi protagonista e testemunha ocular da nossa história. Além do enorme patrimônio histórico e cultural registrado nos estilos arquitetônicos e artísticos das igrejas seculares de Salvador, que encantam a todos que visitam a nossa cidade, a Igreja deixa também uma mensagem de amor que está presente na fé genuína do nosso povo que mesclada com o sincretismo religioso fruto de nossa diversidade étnico-cultural se manifesta nas missas, procissões, festas religiosas populares, se tornando, como diz o poeta, na letra do hino do Senhor do Bonfim “ o eterno farol, és o guia...da alma em festa da sua cidade”. 

Álvaro Dantas Jr.

Historiador, professor universitário e escritor. Doutor em Difusão do Conhecimento pela UFBA. Foi Presidente do Instituto Genealógico da Bahia. Atualmente é Coordenador do Centro de Documentação e Memória da Universidade Católica do Salvador, sócio do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia e membro da Academia Baiana de Educação.