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"Não há provas da existência de Maria Felipa", diz historiador

Pesquisador afirma que não há comprovação documental da personagem

Por: Domynique Fonseca

01/07/202617:00

A trajetória de Maria Felipa, uma das personagens mais conhecidas das narrativas sobre a Independência da Bahia, voltou ao debate nesta quarta-feira (1º). Em entrevista ao programa Portal Esfera no Rádio, na Itapoan 97,5 FM, apresentado por Luis Ganem, o professor e pesquisador Vinicius Jacob afirmou que, do ponto de vista da pesquisa histórica, não há documentos que comprovem a existência da heroína da forma como ela é retratada atualmente.

Comentários sobre a existência de Maria Felipa
Foto: Lorena Bomfim/ Portal Esfera

Especialista em História da Bahia e pesquisador sênior do livro 50 anos de urbanização: Salvador da Bahia do século XIX, Jacob defendeu que os acontecimentos relacionados ao 2 de Julho devem ser analisados com base em fontes documentais.

"Sem querer ser polêmico, e já sendo, não existe documentação que comprove a existência de Maria Felipa. Quem trabalha com História precisa trabalhar com documentos. Até hoje, não encontrei provas que confirmem essa narrativa", afirmou.

O pesquisador destacou que existem romances e relatos literários que mencionam a personagem, mas ressaltou que essas obras não têm o mesmo peso de documentos históricos:

"Existe literatura sobre essa figura, mas literatura não é documento histórico. A pesquisa precisa estar baseada em evidências."

Papel da população negra

Durante a entrevista, Vinicius Jacob também abordou a participação da população negra e das pessoas escravizadas no processo que culminou com a expulsão das tropas portuguesas da Bahia, em 1823.

Segundo ele, a independência não alterou imediatamente a realidade social dos grupos mais vulneráveis.

"No dia 3 de julho, o pobre continuou pobre, o escravizado continuou escravizado e a elite continuou sendo a elite. A expulsão dos portugueses foi um marco importante, mas as desigualdades permaneceram", afirmou.

De acordo com o historiador, havia resistência por parte das lideranças em armar pessoas escravizadas e trabalhadores durante os confrontos:

"O receio era que uma população historicamente oprimida utilizasse essas armas para se rebelar contra quem exercia o poder."

 Divulgação/Casa de Maria Felipa

Divulgação/Casa de Maria Felipa


Independência consolidada na Bahia

Ao comentar o processo de independência do Brasil, Jacob voltou a defender que o 2 de Julho representou o momento decisivo para a consolidação da separação entre Brasil e Portugal.

A resistência organizada no Recôncavo Baiano e o bloqueio do abastecimento de Salvador foram fundamentais para a retirada definitiva das tropas portuguesas. O pesquisador também criticou o pouco espaço dedicado ao episódio na história nacional.

"O controle político e econômico do país ficou concentrado entre Rio de Janeiro e São Paulo, e isso contribuiu para que a importância do 2 de Julho fosse reduzida na narrativa nacional", afirmou.

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Festa ganhou caráter político

Questionado sobre as mudanças nas celebrações ao longo do tempo, Vinicius Jacob observou que o cortejo do 2 de Julho sempre teve forte conteúdo político, embora, segundo ele, o perfil da manifestação tenha mudado:

"O desfile sempre foi um espaço de debate político. Hoje continua sendo, mas perdeu parte do caráter cívico e popular que marcou outras épocas."

O pesquisador defendeu uma leitura mais ampla da história da Bahia e afirmou que a população baiana teve papel decisivo em diferentes movimentos de contestação ao longo da formação do país.

“O povo baiano sempre se rebelou contra sistemas de opressão. Contar essa história com base em documentos é fundamental para compreender a importância da Bahia na construção do Brasil", concluiu.