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Queda da ‘taxa das blusinhas’ deve ter efeitos variados na campanha de Jerônimo

A medida de Lula pode destacar o alto nível do ICMS que encarece compras na Bahia

Por: Paula Eduarda Araújo

15/05/202614:24Atualizado

Apesar do ânimo que tomou os brasileiros após a queda da “taxa das blusinhas”, no cenário eleitoral baiano, os efeitos podem variar, segundo especialistas consultados pelo portal Esfera. A razão para isso é a cobrança do ICMS, que na Bahia — bem como nos outros dez estados — desde 2025 foi elevada para 20,5%.

O governador Jerônimo Rodrigues e o presidente Lula em entrega de unidades habitacionais em Camaçari/BA
Foto: Ascom/Governo da Bahia

Na última terça-feira (12), a população foi surpreendida com a Medida Provisória do governo federal, que revogou o imposto de 20% sobre as compras internacionais de até US$ 50. A tributação, que atingiu sobretudo plataformas de compras online conhecidas entre os consumidores, como a Shein, a Shopee e a Aliexpress, começou a valer a partir de agosto de 2024. 

Desde então, ganhou o status de ser a iniciativa mais impopular da atual gestão brasileira, o que levou à iniciativa de derrubar a tributação, com a projeção em uma boa reação do eleitorado.

Embora o governo de Jerônimo Rodrigues (PT) esteja alinhado com a campanha e os discursos do governo Lula, o que é positivo no contexto de ganho eleitoral, o benefício da isenção federal de 20% é parcialmente absorvido pela carga tributária estadual, na análise de Gabriel Lucas Bentes de Abreu, do Fonseca Brasil Serrão Advogados. 

“De certa forma, isso pode comprometer o entusiasmo do eleitor local em relação à gestão estadual”, pontua. 

Aleḿ disso, o fato ICMS pode vir a se tornar, inclusive, um ponto de crítica da oposição durante o período eleitoral: “O desafio para o governo atual passa a ser justificar a necessidade dessas alíquotas diante de um cenário nacional de desonerações, demonstrando onde esse recurso é aplicado. Sem este contraponto, torna-se muito provável que o tema se consolide como vetor de desgaste eleitoral.”

O ponto de vista é compartilhado pelo CEO da Omnitax e especialista em tributação, Paulo Zirnberger, que expôs um movimento atual da população em reconhecer com mais clareza o peso dos impostos sobre o consumo. 

“Nos bastidores políticos da Bahia, aliados do governo demonstram preocupação com a possibilidade de o tema ganhar dimensão eleitoral. A avaliação é de que o consumidor tende a diferenciar cada vez mais tributos federais e estaduais conforme a reforma tributária avance”, afirma.

Corrida presidencial

Na âmbito nacional, a avaliação de especialistas da área jurídica e política é que a nova medida do governo federal pode abrir uma janela positiva na campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) à caminho da reeleição.

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Zirnberger eforça que a “taxa das blusinhas” se transformou em um símbolo de insatisfação nas redes sociais, impactando, sobretudo, os grupos de classe média e baixa:

“O governo busca reestruturar sua narrativa econômica para o eleitorado do centro. A estratégia abrange ações direcionadas ao consumo popular, ao crédito e à restrição da renda familiar. A reformulação do Desenrola e a revogação das taxas de compras internacionais são exemplos desse movimento.”

Sendo assim, na tentativa de se recuperar nas pesquisas de popularidade entre o eleitorado, o presidente editou uma Medida Provisória (MP) que encerrou imediatamente a cobrança do imposto. 

Impacto dos consumidores

Na mesma linha de análise, a sócia do Poli Advogados e Associados, Daniela Poli Vlavianos, pontua que a medida deve repercutir positivamente e explicou como deve ser a percepção dos consumidores.

“Quando o governo reduz ou elimina um custo percebido como excessivo, existe tendência de melhora na avaliação popular, principalmente entre eleitores menos ideológicos e mais sensíveis ao impacto financeiro imediato”, afirma.

Em sua avaliação, se trata de uma medida com forte apelo simbólico, porque “transmite a ideia de redução da carga tributária e de aproximação com demandas cotidianas da população”. 

No entanto, a especialista ressalta que o efeito eleitoral ainda depende de uma redução efetiva no custo final das compras, lembrando que mesmo sem a taxa das blusinhas, outros impostos sobre compras internacionais seguem ativos, como o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS).

Para o desenho das pesquisas eleitorais, nas quais o presidente Lula aparece constantemente em empate técnico com o principal candidato da direita, o senador Flávio Bolsonaro (PL), a estratégia do petista tem elevada chance de alcançar o efeito desejado, conforme os especialistas. 

Isto se deve ao fato de ações relacionadas ao consumo, área em que os grupos de classes socioeconômicas mais baixas pagam mais do que a parte mais rica da população, exercerem alto impacto emocional, além de terem percepção imediata. Com isso, a tendência é que o governo busque a redução da associação entre sua imagem e o aumento da carga tributária.