Agora é Bab al-Mandeb
31/07/2026 • 04:49
O grupo Houthis nasceu como uma organização cultural chamada Jovem Crente para proteger as tradições da minoria xiita zaiditas contra a influência do sunismo conservador. Surgiu no norte do Iêmen, nos idos de 1990. O grupo foi fundado por Hussein Bedreddin al-Houthi para combater a corrupção do governo iemenita de Ali Abdullah Saleh e a influência de ideologias sunitas radicais na região. Após a morte do seu fundador, em 2004 pelas forças do Iêmen, o grupo passou a ser conhecido como os Houthis, agora sob a liderança de Abdul-Malik al-Houthi, irmão do líder morto.
Em 2004 transformou-se em milícia. Após os protestos da Primavera Árabe, ganhou força para invadir e capturar a capital Saná, em 2014, assumindo o controle de grande parte do país. Atualmente controla boa parte do território do Iêmen com forte apoio militar do Irã. Possui capacidade para paralisar rotas marítimas vitais para a economia mundial. Do ponto de vista militar, fabricam drones, mísseis balísticos e outros armamentos avançados, além dos fornecidos pelo Irã. Além de impor o bloqueio naval no Estreito de Bab al-Mandeb e no Mar Vermelho, afetando o trânsito de petroleiros e o comércio entre a Ásia e a Europa, realizam ataques contra instalações petrolíferas na Arábia Saudita e embarcações internacionais, desafiando potências como os Estados Unidos e o Reino Unido. Dizem agir em solidariedade aos palestinos na Faixa de Gaza, mas analistas apontam que o grupo usa essa causa para fortalecer sua própria imagem política e expandir sua influência regional como aliado do Irã. Os Houthis atacam navios comerciais ligados a Israel ou a países aliados na rota do Mar Vermelho.
Seus líderes afirmam que só vão parar os ataques quando o conflito e o cerco militar em Gaza terminarem. Suas ações marítimas afetam rotas do comércio internacional gerando reações militares e bombardeios de potências ocidentais contra o Iêmen. Em 2024, os Estados Unidos e o Reino Unido realizaram uma série de bombardeios contra os houthis em represália aos ataques contra navios de bandeira internacional no Mar Vermelho. O ataque ordenado por Washington e Londres contra áreas controladas pelos rebeldes ocorreu após hostilidades dos houthis contra navios de bandeira internacional que utilizavam a rota do Mar Vermelho passando pelo o Estreito de Bab al-Mandeb, vital para o comércio e a energia do mundo porque liga o Oceano Índico ao Mar Vermelho e ao Canal de Suez, permitindo a passagem rápida de navios entre a Ásia e a Europa. O estreito de Bab al-Mandeb, com 29 a 32 quilômetros de largura, é a única entrada para quem vem do Golfo de Aden em direção ao Mar Vermelho. Por ele passa grande parte de todo o comércio de produtos e alimentos entre a Ásia e a Europa, além de milhões de barris de petróleo e gás natural todos os dias.
Se a passagem for fechada, os navios precisam dar a volta na África pelo Cabo da Boa Esperança, o que aumenta o tempo de viagem em mais de uma semana e encarece o frete e os combustíveis no mundo todo. O estreito Bab al-Mandeb era conhecido como uma perigosa travessia marítima na borda do mundo mediterrâneo há milênios. Agora pertence aos houthis, que desafiam os Estados Unidos impondo um bloqueio naval no Mar Vermelho e atacando petroleiros da Arábia Saudita, obrigando o presidente americano a responder com ameaças de punição militar severa contra o grupo e contra o Irã. Trump declarou que os EUA responsabilizarão diretamente o Irã por qualquer nova ofensiva na área. Em resposta, os Houthis atacaram navios comerciais e petroleiros no Mar Vermelho e no estreito, mostrando que a geopolítica do poder agora é outra, e que eles são os donos de Bab al-Mandeb.
Luiz Holanda
Luiz Holanda (ou Luiz de Holanda Moura) é um reconhecido jurista, professor universitário e advogado baiano, com vasta experiência em gestão pública e ensino jurídico. É autor de livros e artigos, além de ter sido conselheiro da OAB/BA e ocupado cargos importantes na administração pública.

