Falta de ferro na gravidez altera sexo biológico em estudo
Pesquisa em camundongos aponta que gene Sry pode ser silenciado sem ferro
Por: Iago Bacelar
11/06/2025 • 13:47
Pesquisadores da Universidade de Queensland, na Austrália, e da Universidade de Osaka, no Japão, identificaram que a deficiência severa de ferro durante a gestação pode alterar o desenvolvimento sexual do feto. O estudo, publicado na revista Nature, foi conduzido em camundongos e aponta para uma possível ligação entre a nutrição materna e a definição do sexo biológico em mamíferos.
Silenciamento genético compromete formação masculina
Nos testes realizados com roedores, os cientistas observaram que a falta de ferro na dieta das mães levou ao silenciamento do gene Sry, responsável por ativar a formação de testículos em embriões XY. Sem a ativação desse gene no momento correto, os camundongos machos passaram a desenvolver características femininas, como ovários e estruturas reprodutivas associadas ao sexo feminino.
“Essas descobertas estabelecem um novo papel do ferro na determinação do sexo e indicam que ele pode estar envolvido em outros processos fundamentais do desenvolvimento fetal”, explicou o professor Peter Koopman, da Universidade de Queensland.
Resultados indicam transformação sexual completa em parte dos embriões
Na primeira fase da pesquisa, fêmeas foram submetidas a uma alimentação com baixo teor de ferro antes e durante a gestação. Dos 39 filhotes geneticamente machos, seis nasceram com ovários completamente formados. Em uma segunda etapa, os cientistas bloquearam a absorção de ferro com um medicamento. Como resultado, cinco dos 72 embriões XY também apresentaram órgãos sexuais femininos.
A ausência de ferro impediu a atuação do gene Sry, o que comprometeu o desenvolvimento dos testículos e direcionou os embriões para a diferenciação sexual feminina, mesmo com composição genética masculina.
Ligação inédita entre nutrição e definição sexual
O estudo representa um avanço no entendimento sobre o impacto de fatores externos na formação sexual dos mamíferos. Segundo o biólogo Makoto Tachibana, da Universidade de Osaka, essa é a primeira vez que se observa essa ligação em experimentos científicos.
“Essa é a primeira vez que se demonstra que um fator externo, como a nutrição materna, pode afetar diretamente o processo de determinação sexual em mamíferos”, afirmou Tachibana, que liderou a pesquisa.
Implicações para a saúde materna e fetal
Embora os testes tenham sido realizados exclusivamente em camundongos, a descoberta levanta um alerta sobre os efeitos da saúde nutricional da gestante no desenvolvimento do bebê. Os cientistas destacam que ainda não há comprovação de que o mesmo mecanismo ocorra em fetos humanos, mas defendem que os resultados reforçam a necessidade de atenção à reposição adequada de ferro durante a gravidez.
O ferro é um micronutriente essencial para o transporte de oxigênio no sangue, a formação da placenta e o desenvolvimento do sistema nervoso fetal. A deficiência de ferro na gestação é comum e pode causar anemia, fadiga e riscos à saúde da mãe e do bebê.
Acompanhamento médico e suplementação são essenciais
Para garantir a saúde durante a gravidez, especialistas recomendam acompanhamento médico regular, realização de exames laboratoriais e, quando necessário, uso de suplementação de ferro. Dietas equilibradas, ricas em alimentos como carnes magras, feijão, vegetais verdes escuros e cereais fortificados, também contribuem para manter os níveis adequados do nutriente.
A pesquisa abre caminhos para novas investigações sobre a influência do ambiente uterino no desenvolvimento embrionário e ressalta a importância de cuidados nutricionais adequados desde o início da gestação.
