Terreiro em Cajazeiras é alvo de pichação com mensagens de ódio religioso
Espaço de tradição Bantu em Salvador foi vandalizado pela primeira vez em 33 anos
Por: Redação
20/01/2026 • 10:27 • Atualizado
Um terreiro de candomblé localizado em Cajazeiras 11, em Salvador, foi alvo de intolerância religiosa na manhã do último sábado, 17. O Nzo Mutá Lombô ye Kayongo Toma Kwiza, templo de tradição Bantu, teve portões e fachada pichados com palavras ofensivas, em um ataque registrado pela primeira vez em 33 anos de funcionamento do espaço.
As pichações foram encontradas nos portões de acesso e na fachada do terreiro, situado na Rua Geraldo Brasil. Entre as palavras escritas em tinta vermelha estavam “assassinos” e “Jesus”, caracterizando um ato de vandalismo com forte conotação de ódio religioso, possivelmente cometido durante a madrugada.
O responsável pelo terreiro, Tatá Mutá Imê, contou que soube do crime logo nas primeiras horas da manhã, ao ser alertado por uma filha de santo que havia chegado ao local. Ao verificar a situação, constatou que a palavra “assassinos” foi escrita sobre o letreiro do nome do templo, além de pichações nos portões de pedestres e de veículos.
Segundo o sacerdote, o impacto foi imediato ao se deparar com o conteúdo das mensagens. Ele destacou que o termo utilizado causou revolta e perplexidade, por associar o espaço religioso a crimes inexistentes. Para Tatá Mutá Imê, o ataque revela ignorância e intolerância contra religiões de matriz africana.
O líder religioso afirmou ainda acreditar que o vandalismo não foi praticado por apenas uma pessoa, devido à extensão das pichações. Apesar disso, ressaltou que o terreiro nunca teve conflitos com vizinhos ou com representantes de outras religiões, mantendo, ao longo de mais de três décadas, uma relação de respeito com a comunidade local.
De acordo com Tatá Mutá Imê, o espaço desenvolve ações sociais e sempre teve o cuidado de realizar suas atividades em horários que não causam incômodo à vizinhança. As celebrações, segundo ele, costumam ocorrer durante a tarde e são encerradas ainda no início da noite.
O caso ganha ainda mais relevância por ter ocorrido às vésperas do Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, celebrado em 21 de janeiro, data instituída para reforçar a importância do respeito à diversidade de crenças no Brasil.
Bárbara Carine classifica ataque como crime e denuncia racismo religioso
A pichação também gerou repercussão nas redes sociais e motivou um pronunciamento da escritora, professora da UFBA e influenciadora digital Bárbara Carine Soares Pinheiro, conhecida como uma_intelectual_diferentona. Em vídeo gravado no próprio terreiro, ao lado de Tatá Mutá Imê, ela classificou o ato como criminoso e criticou o uso do nome de Jesus na ação.
“Só na cabeça de pessoas doentias e perversas Jesus ficaria feliz com isso aí. Tenho certeza que Jesus Cristo não aprovaria um bagulho desse”, afirmou.
Bárbara destacou que a violação de um terreiro vai além do dano material e representa uma agressão simbólica profunda. “Quando você viola um terreiro, você não está só degradando um território. Você está violentando memória, ancestralidade, história, espiritualidade e um povo inteiro”, declarou.
A professora reforçou que racismo religioso é crime previsto no Código Penal Brasileiro, cobrou investigação e punição aos responsáveis e fez um apelo para que lideranças cristãs atuem na conscientização dentro de suas próprias comunidades. “Respeitar a fé, a identidade, a memória e a história do outro não é opção, é obrigação”, concluiu.
