Longevidade dos pets: avanço ou sofrimento?
Como a medicina avançada está aumentando a vida dos animais
Por: Ana Beatriz Fernandez Martinez
19/06/2025 • 12:00 • Atualizado
Procedimentos como quimioterapia, hemodiálise, cirurgias cardíacas, fisioterapia, acupuntura e dietas personalizadas são algumas das opções disponíveis hoje para garantir o bem-estar dos animais de estimação. Graças a esses avanços, cães e gatos estão vivendo mais do que nunca.
Um relatório da Allianz Global Investors, divulgado em 2023, revela que a expectativa de vida dos cães quase dobrou nos últimos 40 anos. Já os gatos domésticos podem viver o dobro em comparação aos seus parentes selvagens. Esse aumento se deve a melhorias na alimentação, avanços em diagnósticos preventivos e uma maior conscientização dos tutores sobre a importância dos cuidados veterinários regulares.
Hoje, é cada vez mais comum encontrar cães e gatos que ultrapassam os 15 ou até 20 anos de idade. No entanto, esse prolongamento da vida levanta uma questão crucial: estamos de fato garantindo qualidade de vida aos nossos pets ou apenas adiando seu sofrimento por apego emocional?
Manoel Pereira de Araújo, de 47 anos, viveu essa situação com seus dois pugs, Haron e Amy. Em 2017, Amy foi diagnosticada com leucemia e passou duas semanas internada. Apesar dos esforços e dos altos custos do tratamento — que ultrapassaram R$ 30 mil —, a cadela não resistiu. Anos depois, Haron, então com 14 anos, desenvolveu cirrose devido a medicamentos. Desta vez, Manoel optou pela eutanásia, uma decisão dolorosa, porém necessária.
Juliana Cirillo, oncologista veterinária, observa que muitos tutores veem seus pets como filhos e, por vezes, têm mais dificuldade em lidar com a perda de um animal do que com a de um parente. No Brasil, onde há cerca de 149 milhões de animais de estimação, 93% das pessoas os consideram parte da família, segundo pesquisa da Quaest (2024).
A medicina veterinária evoluiu significativamente, oferecendo terapias avançadas como imunoterapia e quimioterapia metronômica. No entanto, Marcelo Monte Mor, veterinário e físico, ressalta que o foco deve ser sempre a qualidade de vida: "Não faz sentido prolongar o sofrimento a qualquer custo."
Svenja Springer, especialista em ética veterinária, questiona: "A pergunta não é mais ‘podemos fazer isso?’, mas sim ‘devemos?’". Ela alerta que, quando os tratamentos visam mais à satisfação do tutor do que ao bem-estar do animal, os limites éticos são ultrapassados.
Diferentemente da medicina humana, onde a eutanásia ainda é um tabu em muitos países, na veterinária ela é amplamente aceita como uma medida compassiva em casos de sofrimento irreversível. Ingrid Atayde, veterinária, explica que o procedimento é indolor e realizado com anestesia prévia.
Ela destaca a importância de observar sinais como dor constante, dificuldade de locomoção e apatia. Quando os medicamentos não surtem mais efeito e o pet perde sua dignidade, a eutanásia pode ser a escolha mais humana.
Veterinários também enfrentam desafios emocionais ao lidar com tutores que insistem em tratamentos mesmo quando o animal está em agonia. "Precisamos equilibrar o bem-estar do pet com o acolhimento aos donos", afirma Monte Mor.
Para ajudar nessa difícil decisão, Ingrid Atayde recomenda que os tutores reflitam: o pet ainda consegue se alimentar, brincar e interagir? Se a resposta for negativa, pode ser hora de considerar a despedida. Apoio psicológico é essencial para lidar com a perda, pois a dor de um animal de estimação é tão real quanto qualquer outra.
No fim, o maior ato de amor pode ser justamente saber quando deixá-lo ir.
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