Fóssil revela que borboletas existiam antes das flores
Estruturas encontradas em fezes fósseis têm 236 milhões de anos
Por: Iago Bacelar
11/06/2025 • 13:01 • Atualizado
Pesquisadores encontraram escamas de borboletas e mariposas em fezes fossilizadas com 236 milhões de anos, o que indica que esses insetos surgiram muito antes das flores. A descoberta, feita na Argentina, antecipa em cerca de 100 milhões de anos a origem dos lepidópteros, grupo ao qual pertencem borboletas e mariposas.
Análise foi feita em fezes de dicinodontes no Parque Nacional Talampaya
O achado ocorreu em 2011, quando cientistas do Centro Regional de Pesquisa Científica e Transferência Tecnológica de La Rioja (CRILAR) coletaram amostras no Parque Nacional Talampaya, na Argentina. No local, os pesquisadores identificaram uma “latrina comunitária” usada por dicinodontes, herbívoros semelhantes a mamíferos que viveram no período Triássico.
Esse tipo de comportamento, em que animais utilizam o mesmo espaço para defecar, ainda é observado em várias espécies como forma de reduzir riscos de predação e de comunicação social.
Microscopia revelou escamas compatíveis com asas de lepidópteros
Ao analisar os coprólitos (fezes fossilizadas), os pesquisadores identificaram escamas hexápodes microscópicas, com largura equivalente a dois fios de cabelo humano. As estruturas são compatíveis com as asas de borboletas e mariposas e foram detalhadas o suficiente para a descrição de uma nova espécie, batizada de Ampatiri eloisae.
Cronologia dos insetos é antecipada em milhões de anos
A presença dessas escamas em material tão antigo antecipa o surgimento dos lepidópteros em cerca de 35 milhões de anos em relação às estimativas anteriores. Além disso, sugere que a característica mais marcante desses insetos, a probóscide (estrutura usada para sugar líquidos), já existia cerca de 100 milhões de anos antes das flores.
Probóscide teria surgido antes das plantas com flores
O paleontólogo Lucas Fiorelli, do CRILAR, explicou à revista Science que a nova espécie é a mais antiga identificada até o momento, embora não seja o primeiro exemplar do grupo.
"Nossa borboleta é a mais antiga conhecida, mas não é a primeira borboleta", afirmou Fiorelli. Ele destacou que encontrar a forma ancestral do grupo seria comparável a localizar o ancestral comum de humanos e chimpanzés, o que ainda não é possível. Mesmo assim, a espécie descrita é o exemplo mais próximo conhecido dessa origem.
Os pesquisadores estimam que a probóscide tenha surgido entre 260 e 244 milhões de anos atrás, provavelmente como adaptação para explorar fontes de alimento disponíveis no ambiente pré-floral.
Mudanças ambientais podem ter impulsionado a adaptação
A equipe propõe que essa estrutura tenha evoluído logo após o evento de extinção Permiano-Triássico, há cerca de 252 milhões de anos, quando o planeta passou por transformações ambientais intensas. Nesse cenário, plantas não floríferas produziam gotas de polinização, que teriam sido aproveitadas pelos primeiros lepidópteros.
Essas secreções podem ter sido as primeiras fontes exploradas com a ajuda da probóscide primitiva, que mais tarde se tornaria especializada com o surgimento das plantas com flores, originando a relação simbiótica entre borboletas e flores observada atualmente.
Descoberta reabre debate sobre coevolução entre insetos e plantas
A análise do fóssil, segundo os cientistas, fornece novas pistas sobre a evolução dos insetos polinizadores e o papel que desempenharam em ecossistemas muito anteriores ao surgimento das flores modernas. A descoberta também reforça a importância de sítios paleontológicos pouco explorados, como o de Talampaya, para compreender a diversidade biológica do passado remoto.
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