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Lula defende governança global da IA e alerta para riscos à democracia

Em discurso na Índia, presidente cobra regulação, inclusão digital e limites ao poder das big techs

Por: Redação

19/02/202612:48

Durante a Sessão Plenária da Cúpula sobre o Impacto da Inteligência Artificial, em Nova Délhi, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a defender uma governança global da inteligência artificial baseada no multilateralismo, na inclusão e no desenvolvimento social. Segundo ele, sem coordenação internacional, a tecnologia tende a aprofundar desigualdades e fragilizar democracias.

Foto Lula defende governança global da IA e alerta para riscos à democracia
Foto: Ricardo Stuckert/PR

Para Lula, o avanço acelerado da Quarta Revolução Industrial contrasta com o enfraquecimento do multilateralismo.

“Sem ação coletiva, a inteligência artificial aprofundará desigualdades históricas. O Brasil defende uma governança que reconheça a diversidade de trajetórias nacionais e garanta que a IA fortaleça a democracia, a coesão social e a soberania dos países”, afirmou.

Ao discursar, o presidente lembrou que 2,6 bilhões de pessoas ainda estão fora do universo digital, segundo dados da União Internacional de Telecomunicações. Para ele, discutir inteligência artificial sem enfrentar esse abismo é ignorar o principal impacto social da tecnologia.

“Colocar o ser humano no centro das nossas decisões é tarefa urgente. O regime de governança dessas tecnologias definirá quem participa, quem é explorado e quem ficará à margem desse processo”, destacou.

Riscos da inteligência artificial para a democracia

Lula também fez um alerta direto sobre os perigos do uso indiscriminado da IA, especialmente no campo político. De acordo com ele, conteúdos manipulados e falsos têm potencial para contaminar eleições e corroer instituições democráticas.

“Conteúdos falsos manipulados por inteligência artificial distorcem processos eleitorais e põem em risco a democracia”, disse. Na avaliação do presidente, toda inovação de grande impacto carrega um caráter dual, capaz de gerar avanços ou ampliar riscos sociais.

Uso positivo e ameaças associadas à tecnologia

O presidente reconheceu que a inteligência artificial já traz ganhos expressivos para áreas como produtividade industrial, serviços públicos, medicina e segurança alimentar. Ainda assim, ponderou que a tecnologia também pode ser usada para fins nocivos.

Segundo Lula, práticas como armas autônomas, discursos de ódio, desinformação, pornografia infantil, violência contra mulheres e precarização do trabalho são exemplos de distorções possíveis.

“Os algoritmos não são apenas códigos matemáticos. Eles fazem parte de uma complexa estrutura de poder”, afirmou.

Regulação das big techs e concentração de poder

Outro ponto central do discurso foi a defesa da regulamentação das grandes empresas de tecnologia. Lula criticou a concentração de infraestrutura, capital e dados em poucas corporações e países.

“Quando poucos controlam os algoritmos e as infraestruturas digitais, não estamos falando de inovação, mas de dominação”, declarou. Para ele, regular as big techs é essencial para proteger direitos humanos, garantir a integridade da informação e preservar as indústrias criativas.

Brasil e políticas para inteligência artificial

No cenário interno, Lula destacou que o Brasil tem avançado em políticas para o setor, com estímulo a centros de dados, atração de investimentos e construção de um marco regulatório de IA. Ele lembrou o lançamento, em 2025, do Plano Brasileiro de Inteligência Artificial, voltado à melhoria dos serviços públicos e à geração de emprego e renda.

A reunião em Nova Délhi integra o chamado Processo de Bletchley, uma série de encontros globais sobre segurança e governança da inteligência artificial. Esta foi a primeira vez que um presidente brasileiro participou de um evento de alto nível dedicado exclusivamente ao tema.

Relação Brasil–Índia e agenda bilateral

A viagem reforça o momento de aproximação entre Brasil e Índia, marcado por cooperação econômica, tecnológica e política. Após a cúpula, Lula cumpre agenda bilateral com o primeiro-ministro Narendra Modi, com discussões que incluem transformação digital, comércio, reforma da governança global e fortalecimento do multilateralismo.

Em 2025, o comércio bilateral entre os dois países atingiu US$ 15 bilhões, com meta de chegar a US$ 20 bilhões até 2030, consolidando a Índia como um dos principais parceiros comerciais do Brasil.