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Países rejeitam conselho criado por Trump e Brasil adota cautela

Brasil evita resposta imediata e vê proposta como sinal da crise do sistema multilateral

Por: Redação

24/01/202611:35

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou na quinta-feira (22) a criação do chamado “Conselho da Paz”, uma nova estrutura internacional voltada, inicialmente, à mediação de conflitos e à reconstrução da Faixa de Gaza. A proposta, no entanto, já enfrenta resistência no cenário diplomático global: embora cerca de 60 países tenham sido convidados, ao menos seis rejeitaram formalmente a iniciativa, enquanto outras nações seguem cautelosas.

Foto Países rejeitam conselho criado por Trump e Brasil adota cautela
Foto: Divulgação / The White House

Até o momento, 23 países confirmaram adesão ao conselho, entre eles aliados políticos do governo Trump, como Argentina e Israel. Em contrapartida, potências europeias como França, Alemanha, Espanha, Suécia, Noruega e Eslovênia optaram por não participar, alegando preocupação com os impactos do novo órgão sobre o sistema internacional vigente.

De acordo com informações divulgadas pela agência Reuters, o estatuto do Conselho da Paz prevê que Trump ocupe a presidência do grupo por tempo indeterminado. O documento também estabelece que países interessados em assentos permanentes deverão desembolsar US$ 1 bilhão, valor que seria administrado diretamente pelo próprio presidente americano. Diplomatas avaliam que esse modelo pode enfraquecer ainda mais o papel das Nações Unidas.

Segundo a Bloomberg, a Itália foi convidada a integrar o grupo fundador, mas ainda não se manifestou. O Canadá, por sua vez, teve o convite retirado após um embate público entre Trump e o primeiro-ministro canadense, Mark Carney, durante o Fórum Econômico Mundial.

Brasil adota cautela

O governo brasileiro ainda não definiu se aceitará ou não o convite. O Palácio do Planalto avalia o estatuto do conselho e não demonstra pressa em dar uma resposta formal. A tendência, segundo apuração, é que o Brasil encaminhe questionamentos técnicos sobre possíveis brechas jurídicas e o funcionamento do novo órgão antes de qualquer decisão.

Nesta sexta-feira (23), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez duras críticas à proposta. Para ele, a criação do conselho representa uma tentativa de substituir a ONU, em vez de fortalecer ou reformar a organização.

“O mundo vive um momento político muito crítico. A Carta da ONU está sendo desrespeitada. Em vez de corrigir a ONU, como defendemos há décadas, o presidente Trump age como se pudesse criar uma nova organização internacional sozinho”, afirmou Lula.

Debate deve chegar à Assembleia Geral

A diplomacia brasileira pretende usar o debate em torno do Conselho da Paz como argumento para pressionar por uma reforma do Conselho de Segurança da ONU, tema que deve ganhar destaque na Assembleia Geral marcada para setembro. A estratégia do governo é articular apoio de outros países para ampliar a representatividade e democratizar as decisões da organização.

Diplomatas ouvidos reservadamente avaliam que a proposta de Trump evidencia a fragilidade do atual sistema multilateral, especialmente diante da incapacidade do Conselho de Segurança de responder a crises prolongadas, como o conflito em Gaza. Para integrantes do Itamaraty, se iniciativas paralelas começarem a substituir a ONU, o mundo poderá caminhar para modelos unilaterais de governança internacional.