Lula descarta alinhar Brasil a confronto EUA-China
Presidente defende soberania em meio a novas tarifas de Trump
Por: Victor Hugo
30/07/2025 • 18:52 • Atualizado
Nas vésperas da entrada em vigor das novas tarifas impostas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva declarou ao jornal americano New York Times que o Brasil negociará de forma soberana e não participará de uma "Guerra Fria" contra a China.
Questionado sobre um possível impacto de suas críticas abertas a Trump nas negociações, Lula expressou preocupação com as tarifas devido aos interesses econômicos, políticos e tecnológicos do Brasil, mas reiterou que não há motivo para receio. Ele enfatizou que "o Brasil negociará como um país soberano", buscando um meio-termo nas relações bilaterais. "Não se consegue estufando o peito e gritando sobre coisas que não se pode realizar, nem abaixando a cabeça e simplesmente dizendo ‘amém’ a tudo o que os EUA desejam", afirmou o presidente brasileiro.
Lula sugeriu que, se as tarifas de 50% foram aplicadas em retaliação ao processo judicial do ex-presidente Jair Bolsonaro, isso resultará em custos mais altos para consumidores brasileiros e norte-americanos. Ele defendeu que a causa não justifica tal medida, destacando que "o Brasil tem uma Constituição, e o ex-presidente está sendo julgado com pleno direito de defesa". Bolsonaro é investigado por suposta tentativa de golpe de Estado após as eleições de 2022, acusações que ele nega.
O presidente brasileiro criticou a mistura de questões políticas e comerciais por parte de Trump. "Se ele quer ter uma briga política, então vamos tratá-la como uma briga política. Se ele quer falar de comércio, vamos sentar e discutir comércio. Mas não se pode misturar tudo", argumentou. Ele exemplificou, dizendo que o Brasil não pode exigir que os EUA suspendam o bloqueio a Cuba para discutir outras demandas comerciais, por respeito à diplomacia e soberania.
Ausência de Diálogo e Resposta Via Site
Sobre a falta de contato direto com Trump para discutir a situação de Bolsonaro, Lula revelou ao New York Times que tentativas de diálogo com Washington foram infrutíferas. "Designei meu vice-presidente, meu ministro da Agricultura, meu ministro da Economia, para que cada um possa conversar com seu homólogo e entender qual seria a possibilidade de diálogo. Até agora, não foi possível", explicou.
O governo brasileiro teve dez reuniões de comércio com o Departamento de Comércio americano e, em 16 de maio, enviou uma carta solicitando uma resposta. A resposta, segundo Lula, veio de forma impessoal: "A resposta que recebemos foi por meio do site do presidente Trump, anunciando as tarifas sobre o Brasil. Espero, portanto, que a civilidade retorne à relação Brasil-EUA. O tom da carta dele é definitivamente o de alguém que não quer conversar", lamentou.
Comércio Sem Preferências e Recusa à Polarização
Caso as tarifas entrem em vigor, Lula afirmou que o Brasil não "chorará o leite derramado" e buscará novos mercados para seus produtos. Ele foi enfático ao declarar que o país não aceitará se envolver em uma "Guerra Fria" contra a China.
"Temos uma relação comercial extraordinária com a China. Se os Estados Unidos e a China quiserem uma Guerra Fria, não aceitaremos. Não tenho preferência. Tenho interesse em vender para quem quiser comprar de mim, para quem pagar mais", disse. Recentemente, a China já havia sinalizado que está pronta para colaborar com o Brasil na defesa de um sistema multilateral de comércio justo e equitativo, criticando abertamente as tarifas impostas pelos EUA.
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