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Crimes ambientais crescem na Bahia

Incêndios aumentam 32% e casos de poluição sobem 42% entre 2022 e 2024

Por: Lorena Bomfim

17/06/202508:56

A Bahia vem registrando um aumento preocupante nos crimes ambientais e nos incêndios florestais nos últimos anos. De acordo com o relatório Além da Floresta: Conflitos Socioambientais e Desertos de Informação, da Rede de Observatórios da Segurança, os crimes relacionados ao descarte e à manutenção de substâncias perigosas cresceram 42% entre 2023 e 2024, subindo de 19 para 27 casos. Já os registros de incêndios florestais saltaram de 870, em 2022, para 1.155 em 2024 — um aumento de 32,7%.

Bombeiro combatendo o fogo
Foto: Divulgação /Corpo de Bombeiros

Esses crimes foram classificados como “produzir e/ou manter substância tóxica, perigosa ao meio ambiente” e “abandonar substância tóxica perigosa ao meio ambiente”. A Rede solicitou dados sobre crimes ambientais, conflitos fundiários e violências contra povos tradicionais a secretarias de segurança e órgãos públicos, mas não obteve informações detalhadas sobre os produtos químicos envolvidos nem a origem desses crimes.

Populações vulneráveis sofrem os maiores impactos

De acordo com Ana Paula Rosário, pesquisadora da Rede de Observatórios da Segurança na Bahia, as populações mais afetadas por esse cenário são as comunidades quilombolas, indígenas e moradores de periferias. “Essas comunidades estão sendo atravessadas por esses contextos e, sobretudo, pelos impactos disso”, afirma.

Um dos exemplos mais graves vem da Ilha da Maré, na Baía de Todos-os-Santos. Pesquisa coordenada por Mônica Ramos, professora da Universidade Federal do Recôncavo Baiano (UFRB), detectou altos níveis de contaminação por chumbo e cádmio — metal cancerígeno — em crianças da região. A poluição estaria ligada aos resíduos industriais despejados por portos e centros fabris próximos.

Falta de dados prejudica monitoramento

Os pesquisadores alertam para um “apagão” de informações nos bancos de dados oficiais, que em geral se baseiam em registros policiais. Como há diferentes classificações legais e uma grande dificuldade de padronização, os crimes foram agrupados em cinco categorias: contra a fauna, contra a flora, poluição, exploração mineral e outros.

O estudo analisou dados de sete estados: Bahia, Ceará, Pernambuco, Rio de Janeiro, São Paulo, Maranhão e Piauí.

Incêndios lideram os crimes contra a flora

Na Bahia, 80% dos crimes ambientais registrados entre 2022 e 2024 foram contra a flora. Só os incêndios florestais, principal infração desse tipo, somaram 3.238 registros no período — com um aumento de 32,7% entre 2022 e 2024. “Essas ações impactam diretamente a vida nas periferias, nos quilombos e nas comunidades indígenas”, reforça Rosário.

Em março de 2025, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) identificou 771 focos de incêndio ativos no estado. Um dos mais graves ocorreu no Parque Nacional da Chapada Diamantina, nas proximidades do Morro do Pai Inácio, em Palmeiras.

Além dos incêndios, também são frequentes os crimes como desmatamento, corte ilegal de árvores em áreas de preservação e destruição de florestas em terras públicas. Essas ações somaram 885 ocorrências no estado nos últimos três anos.

Aumento de crimes contra indígenas

O levantamento também identificou um aumento significativo nos crimes contra povos indígenas. O número de casos saltou de 138, em 2022, para 228 em 2024 — alta de 65%. As principais ocorrências incluem ameaças, lesão corporal, injúria e difamação.

Os dados divulgados pela Rede de Observatórios da Segurança reforçam o alerta para a urgência de políticas públicas ambientais e de proteção a povos tradicionais. O alerta chega em um momento simbólico: o Brasil será o anfitrião da Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP 30), em novembro de 2025.

A Rede é formada por instituições acadêmicas e da sociedade civil, com o objetivo de monitorar a violência e influenciar políticas públicas de segurança baseadas em dados e realidades locais.