Advogada alerta para riscos do uso de IA em jingles eleitorais
Especialista afirma que campanhas precisam de autorização prévia para uso de músicas
Por: Domynique Fonseca
29/05/2026 • 13:00
O uso de inteligência artificial na produção de jingles políticos e conteúdos de campanha pode gerar punições severas para candidatos e partidos nas eleições. O alerta foi feito pela advogada especialista em direitos autorais e entretenimento, Jaqueline San Galo, durante entrevista ao programa Portal Esfera no Rádio, na 97,5 FM, apresentado por Luis Ganem, nesta sexta-feira (29).
Segundo a especialista, a Justiça Eleitoral endureceu as regras relacionadas ao uso de músicas em campanhas desde 2024, proibindo paródias de canções conhecidas e ampliando a fiscalização sobre conteúdos produzidos com inteligência artificial.
“As pessoas ainda insistem naquela ideia da ‘lei que não pega’, mas isso não existe. A resolução do Tribunal Superior Eleitoral é clara e prevê consequências imediatas para quem utiliza músicas sem autorização”, afirmou.
Jaqueline explicou que a Resolução 23.732/2024 do TSE proíbe o uso de músicas famosas sem autorização prévia dos autores, além de vedar deepfakes, alterações de letras, sincronização de músicas comerciais e utilização não autorizada de vozes em materiais de campanha.
De acordo com a advogada, a regra vale inclusive para jingles adaptados e conteúdos produzidos por ferramentas de inteligência artificial.
“A campanha pode ser retirada do ar imediatamente se não houver autorização do autor. Não é necessário nem comprovar intenção de cometer irregularidade. Basta a infração”, explicou.
A especialista destacou que muitos candidatos, principalmente os que disputam cargos proporcionais, passaram a recorrer a ferramentas de IA por causa do baixo custo. Enquanto uma produção musical original pode ultrapassar R$ 10 mil, jingles gerados automaticamente são encontrados por valores inferiores a R$ 50 em plataformas digitais.
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Apesar da praticidade, ela alerta que o uso dessas ferramentas também envolve riscos jurídicos. Segundo Jaqueline, muitas plataformas deixam claro nos termos de uso que o conteúdo gerado não garante autoria exclusiva ao usuário.
“Hoje existem ferramentas que criam jingles em segundos, mas isso não significa que aquele conteúdo seja juridicamente seguro. A agência, o candidato e até o partido podem responder por isso”, disse.
Durante a entrevista, a advogada também comentou o impacto da inteligência artificial nas plataformas de streaming musical. Segundo ela, grande parte das músicas enviadas diariamente já é produzida por IA.
“São milhares de músicas subidas por dia, muitas feitas exclusivamente para alimentar mecanismos automatizados de reprodução. As plataformas sabem disso e começam a criar mecanismos para diferenciar conteúdos humanos dos artificiais”, afirmou.
Jaqueline também chamou atenção para a responsabilidade das agências de publicidade envolvidas nas campanhas eleitorais. Segundo ela, os profissionais que produzem peças audiovisuais precisam verificar a originalidade das músicas utilizadas e garantir a autorização legal dos autores.
Ela explicou ainda que a legislação prevê multas, retirada imediata de conteúdos e, em casos de reincidência, até a cassação da candidatura.
“As campanhas movimentam milhões, as agências recebem, os partidos investem pesado, mas muitas vezes o compositor fica de fora. O direito autoral existe justamente para proteger quem criou aquela obra”, declarou.
A advogada reforçou que o cumprimento das regras eleitorais e autorais deixou de ser apenas uma questão burocrática e passou a representar também um cuidado reputacional para candidatos e partidos durante o período eleitoral.
