Afroempreendedores impulsionam economia no Pelourinho
Pequenos empreendedores negros fortalecem o turismo étnico em Salvador
Por: Iago Bacelar
18/06/2025 • 14:00
O Pelourinho, no centro histórico de Salvador, tem se consolidado como território de resistência e fortalecimento da economia negra. Em meio a casarões coloniais e vielas históricas, uma rede pulsante de afroempreendedores movimenta o cotidiano local com pequenos comércios, barracas, ateliês, bares, restaurantes e eventos culturais. Essa presença transforma o espaço em um polo estratégico de geração de renda e afirmação identitária.
Negócios locais estruturam economia baseada em cultura e ancestralidade
No cotidiano, ambulantes, vendedores de comidas típicas e microempreendedores sustentam a base econômica do Pelourinho. São bandejas de bolos, cuscuz e mingaus que circulam pelas ruas durante o dia, atraindo turistas e moradores. Muitos trabalham de forma autônoma, mas há um crescimento nas ações coletivas e formativas com foco em atendimento, higiene e precificação, fortalecendo a profissionalização desses serviços.
A interdependência entre arte e economia é visível nas rodas de capoeira, nos ensaios abertos e nas oficinas artesanais. A circulação de visitantes impacta diretamente nos serviços de alimentação, guia turística e venda de souvenirs, formando um ciclo que movimenta famílias e estimula a permanência dos negócios no território.
Empreendedores transformam vivências pessoais em ações coletivas
Casos como o do artista Raimundo Bida mostram a conexão entre arte e desenvolvimento local. Com formação em Artes Visuais pela UFBA, ele iniciou sua trajetória no Pelourinho, onde montou seu ateliê, galeria e estúdio. “Voltei a estudar, consegui entrar na Universidade Federal... Sou bacharel em artes visuais”, disse. A partir do centro, suas obras ganharam o mundo, com mais de 80 exposições em 14 países, incluindo o Parlamento Europeu e um painel permanente na Alemanha.
Já o comunicador e chef Herlon Miguel, criador do Negrito Lab, defende uma integração entre gastronomia, cultura e turismo. “A gente precisava pensar uma política pública onde turismo, cultura e gastronomia funcionassem sincronizados”, afirmou. Natural do bairro da Liberdade, viu no Pelourinho a oportunidade de realizar o sonho de empreender com propósito.
Projetos coletivos consolidam redes afrocentradas
Empreendimentos como o Negro’s Bar, a Cantina da Lua e o Clube do Samba já são reconhecidos como pontos de encontro e valorização da cultura negra. Outros espaços como a Katuka Africanidades e o ateliê Cabuloso reforçam o papel do território como vitrine para a estética afro-brasileira. “Quando a gente pensou a Katuka, pensou como um espaço possível de encontro com a nossa estética, com as estéticas negras”, disse a idealizadora.
A Sociedade Protetora dos Desvalidos, fundada no século XIX, segue como símbolo de articulação econômica da população negra. Atualmente, o espaço abriga ações educativas, culturais e comerciais.
Outros projetos ganharam destaque recentemente, como a Feira Pretxs, que reúne empreendedores de moda, cosméticos, gastronomia e artesanato, e a loja coletiva Negros Solidários, que funciona em sistema de vitrine rotativa para marcas negras.
Políticas públicas estruturam o turismo étnico na cidade
O programa Salvador Capital Afro, lançado em 2022, tem sido uma das principais estratégias para posicionar a cidade como referência em turismo étnico. Entre as ações estão o mapeamento de negócios negros, capacitações, criação de roteiros temáticos e incentivo à formalização.
Com apoio de instituições como Sebrae, Setur, Sepromi e IFBA, o Festival Movaê, realizado em 2024, reuniu empreendedores e promoveu oficinas voltadas para a economia criativa afrocentrada. A plataforma Afro Biz e o programa Afro Estima também integram esse esforço de estruturação do setor.
Na prática, essas iniciativas buscam enfrentar a informalidade, melhorar o acesso ao crédito e promover qualificação profissional. A ideia é garantir que os recursos gerados fiquem nas comunidades locais e que a cultura negra seja motor de desenvolvimento econômico contínuo.
Moradores históricos e novas lideranças compartilham o protagonismo
Figuras como Jorge do Bazar Musical, que mantém seu comércio desde os anos 1970, mostram a longevidade e resistência do comércio local. “Nada ia substituir o som do vinil”, contou. Ele acredita que o Pelourinho pode ganhar novo fôlego com mais incentivos e valorização da memória local.
Já o publicitário Paulo Rogério, fundador do Hub Vale do Dendê, defende o reconhecimento do Pelourinho como distrito criativo nacional, com foco em moradia, retrofit e atração de novos empreendimentos. “Poucos lugares no Brasil reúnem arte, música, história, museus e infraestrutura como o Pelourinho. É o coração do Brasil”, afirmou.
Para ele, além de abrigar eventos, o centro deve ser espaço de moradia e produção contínua. “Neste momento, estou recebendo um hóspede do Quênia, um grande influenciador digital”, contou, ao falar do projeto Casa Schant, hospedagem voltada para o turismo cultural afro-brasileiro.
