2026 e o ano que não vai terminar
Entre a fadiga do eleitor e a antecipação permanente do conflito, o Brasil entra em mais um ciclo eleitoral sem jamais sair do anterior
07/01/2026 • 16:12
É uma tolice iniciar um ano dizendo que é ano de eleição, ainda mais no Brasil. Digo isso porque o nosso país, de maravilhas mil, vive preso em uma disputa perpétua. A eleição? Já começou — isso se sequer tiver terminado algum dia.
Teremos BBB, Copa do Mundo e outras zilhões de competições neste ano do Cavalo, para quem acredita no horóscopo chinês, diz-se ser um ano de transformação e mudança, mas nenhuma contenda chega perto da rivalidade, da querela, do litígio em que se tornou o processo eleitoral no país.
O embate um dia foi como o de amigos jogando dominó: competição ferrenha, ânimos exaltados, mas com uma cordialidade que permitia um convívio fora do que acontecia na mesa. Foi-se o tempo.
Hoje, a política nos domina como uma guerra campal. Amigos terminam amizades, conversas de bar evoluem para desavenças, reuniões de família possuem uma tensão palpável, onde todos se acotovelam, desconcertados, com medo de ouvir um “e a Havaianas?” que sirva como prenúncio de um estouro, e as redes sociais andam cada vez mais tóxicas e desreguladas (e que Deus nos proteja das IAs).
No dia 4 de outubro de 2026, mais de 155 milhões de brasileiros deverão ir às urnas escolher seus representantes para os cargos de deputado federal, deputado estadual ou distrital, dois senadores, governador e presidente da República. E não é exagero dizer que este último nunca pautou tanto o processo como agora.
Um levantamento divulgado pelo Estadão apontou que 70% das eleições presidenciais na América Latina foram vencidas pela oposição nos últimos três anos. Com crises estruturais tão graves, a sensação dos que vivem por estas bandas transita quase sempre entre uma insatisfação latente com o governo pela falta da “sensação de ordem e de melhorias”, seja à direita, seja ao centro, seja à esquerda.
Bolsonaro está de fora, mas o bolsonarismo não. O que faz com que a oposição brasileira pareça presa a um dilema insolúvel: quer se afastar do bolsonarismo, mas teme perder sua força; quer disputar o centro, mas não constrói um centro organizado. Sem síntese, sobra fragmentação — e fragmentação não vence eleições majoritárias.
Mas a falta de uma articulação conjunta que construa uma base sólida para derrotar alguém que venceu três eleições presidenciais — o que o coloca como um dos maiores políticos (no significado literal da palavra “político”, ideologias à parte) da história deste país — deixa o tapete estendido para que seja vencida mais uma: a quarta.
Enquanto lideranças falam para seus próprios públicos, sem coordenação e sem gesto de renúncia individual em favor de um projeto maior, o discurso se dilui. Quatro ideias, ainda que semelhantes, ditas por Flávio, por Caiado, por Tarcísio, por Zema, não têm poder nenhum frente a uma ideia que saia da boca de um e que seja amplificada e ressoada pelos outros três como um pacto. A política, que deveria organizar o conflito, passou a ser o próprio conflito — barulhento, personalista e improdutivo.
Enquanto isso, o eleitor médio segue buscando algo quase prosaico: previsibilidade, segurança, algum senso de normalidade. Algo que, fora algumas claques ensandecidas, já não responde a uma ideologia pura, e sim ao cansaço que essa dinâmica produz e à necessidade da sobrevivência cotidiana.
A eleição de 2026 ainda nem chegou, mas já cansa — porque todos sabem que, passada a apuração, o jogo recomeça quase imediatamente. Até 2030, resta aguentar. E sobreviver.
Fernando Valverde
Jornalista com passagem por alguns dos principais veículos de imprensa do estado, onde atuou e coordenou equipes com ênfase na cobertura política. Cursou Comunicação Social na Universidade Federal da Bahia e atualmente é Editor-Chefe do Portal Esfera.
