Crescimento do veganismo levanta debate sobre segurança na infância
Estudos apontam vantagens e desafios da alimentação baseada em plantas durante o crescimento infantil
Por: Lorena Bomfim
15/07/2025 • 15:00
O veganismo tem ganhado espaço em várias partes do mundo. Embora os dados globais ainda sejam limitados, estimativas indicam que cerca de 3% da população mundial adotava essa dieta em 2018. No Reino Unido, a Sociedade Vegana aponta que 3% da população, aproximadamente 2 milhões de pessoas, seguem uma alimentação vegana. Já nos Estados Unidos, levantamento do instituto Gallup mostra que 1% dos americanos era vegano em 2023.
Entre os principais argumentos em defesa do veganismo estão a preocupação com o meio ambiente, o bem-estar animal e os benefícios para a saúde. Dietas baseadas em vegetais tendem a ser mais sustentáveis, além de estarem associadas à redução do colesterol, menor risco de doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2 e alguns tipos de câncer.
Contudo, o crescimento do veganismo entre crianças tem gerado debates, especialmente diante de casos isolados de desnutrição severa em bebês. A segurança dessa prática para o público infantil ainda divide especialistas e autoridades ao redor do mundo.
Divergência entre países
Nos Estados Unidos e no Reino Unido, órgãos de saúde afirmam que dietas veganas, quando bem planejadas, são seguras para crianças e bebês. Já em países como Alemanha, França, Bélgica e Polônia, há preocupações sobre possíveis deficiências nutricionais em dietas restritas.
Estudos sobre os efeitos do veganismo infantil ainda são escassos, mas novas pesquisas começam a oferecer dados relevantes.
Benefícios e riscos
Segundo a cientista nutricional Federica Amati, do Imperial College de Londres, crianças veganas podem apresentar menores níveis de colesterol e peso mais adequado, o que pode reduzir o risco de doenças cardíacas e obesidade. Além disso, dietas vegetais são ricas em fibras e compostos antioxidantes, como os polifenóis, que beneficiam a saúde geral.
Por outro lado, há nutrientes que são naturalmente escassos ou inexistentes em alimentos vegetais. A vitamina B12, por exemplo, é produzida por bactérias presentes em organismos animais. Sua deficiência pode comprometer o desenvolvimento neurológico, especialmente em crianças pequenas, que possuem altas demandas nutricionais durante a fase de crescimento.
Outros nutrientes críticos incluem os ácidos graxos ômega-3 (EPA e DHA), presentes em peixes e algas, além do ferro, zinco, cálcio, iodo e vitamina D. Em dietas veganas, esses elementos precisam ser obtidos por meio de alimentos fortificados ou suplementação.
Casos graves e planejamento alimentar
Casos de desnutrição severa em bebês alimentados exclusivamente com leites vegetais, como os registrados na Itália e na Bélgica, acenderam alertas. No entanto, especialistas afirmam que, com planejamento e acompanhamento médico, é possível garantir uma nutrição adequada para crianças veganas.
Um estudo de 2021 com 187 crianças na Polônia comparou dietas veganas, vegetarianas e onívoras. Os resultados mostraram que, embora as crianças veganas fossem mais magras e tivessem menores níveis de colesterol e inflamação, também apresentavam níveis reduzidos de cálcio e maior risco de deficiência de ferro, vitamina D e B12. Além disso, eram em média 3 a 4 cm mais baixas e tinham densidade mineral óssea 6% menor, o que pode representar risco de fraturas no futuro.
A pesquisadora Malgorzata Desmond, responsável pelo estudo, ressalta que essas deficiências podem ser evitadas com dieta equilibrada, uso de suplementos e orientação profissional.
Suplementos e alimentos fortificados
Para atender às necessidades nutricionais, os especialistas recomendam o consumo de alimentos fortificados – como cereais, leites e iogurtes vegetais enriquecidos com B12, cálcio e vitamina D – e a suplementação, principalmente de B12 e ômega-3 derivados de algas.
Sementes de chia e linhaça, nozes, leguminosas, vegetais verdes escuros e frutas cítricas também devem compor o cardápio diário, contribuindo com fibras, ferro e vitaminas essenciais.
Cuidado com os ultraprocessados
Apesar da crescente oferta de produtos veganos no mercado, como queijos e carnes vegetais industrializados, os especialistas recomendam moderação. Segundo Amati, manter uma dieta baseada em alimentos frescos e variados é essencial para garantir qualidade nutricional.
Informação e acompanhamento são fundamentais
Para famílias que optam pelo veganismo na infância, o acompanhamento com nutricionistas pediátricos é indispensável. O crescimento e o desenvolvimento das crianças devem ser monitorados de forma contínua, permitindo a identificação precoce de eventuais deficiências.
“A dieta vegana pode ser segura na infância, desde que feita com responsabilidade e com atenção aos nutrientes-chave”, afirma Desmond.
Pesquisadores reforçam que ainda são necessários mais estudos sobre os efeitos do veganismo em crianças. No entanto, com planejamento, educação nutricional e suporte profissional, é possível seguir esse caminho de forma saudável.
