Brasil pode liderar nova era energética com terras raras
Vulcão extinto revela potencial do Brasil na produção de insumos para energia limpa
Por: Lorena Bomfim
21/06/2025 • 08:50
A possibilidade de exploração de minérios conhecidos como terras raras na cratera de um vulcão extinto há 120 milhões de anos, em Poços de Caldas, no Sul de Minas Gerais, pode transformar o Brasil em protagonista da transição energética global. Essenciais para a produção de tecnologias limpas — como turbinas eólicas, carros elétricos e equipamentos eletrônicos —, esses elementos químicos vêm ganhando importância estratégica e são alvo de disputas comerciais entre potências como China e Estados Unidos.
Apesar do nome, as terras raras são abundantes na natureza. O termo se refere à dificuldade de separação desses elementos dos minerais nos quais estão presentes. O Brasil possui a segunda maior reserva do mundo, com 21 milhões de toneladas — cerca de 23% do total global, segundo o Ministério de Minas e Energia (MME).
A jazida identificada em Poços de Caldas se destaca pela extensão, qualidade do minério e viabilidade de extração. Os minérios estão próximos da superfície, o que elimina a necessidade de detonações, reduzindo impactos ambientais e custos operacionais. Estudos indicam que a concentração dos elementos chega a 2.590 ppm (partes por milhão), bem acima da média global, que varia entre 1.000 e 1.500 ppm.
Segundo o geólogo Álvaro Fochi, responsável pela descoberta, a formação rochosa da região — composta por rochas alcalinas mais frágeis — favoreceu a transformação, ao longo de milhões de anos, em argila rica em íons de terras raras. A cratera de Poços de Caldas é considerada a segunda maior ocorrência de rochas alcalinas do mundo, ficando atrás apenas de uma jazida na Sibéria, que, no entanto, não possui as mesmas condições climáticas favoráveis à formação de argila iônica.
Sustentabilidade e tecnologia
A extração será realizada por meio do sistema backfill, que consiste em abrir novas cavas enquanto as anteriores são preenchidas e reabilitadas com o mesmo material extraído. O processo utiliza retroescavadeiras para remoção de até 30 metros de solo, seguido da lixiviação da argila com sulfato de amônia. Em seguida, ocorre a separação química dos elementos, e a argila é lavada e reutilizada, sem necessidade de barragens. A água utilizada é reaproveitada em 80%, oriunda de reservatórios agrícolas.
“O processo é mais barato e ambientalmente sustentável. Você não detona, não usa muita energia, não utiliza ácido forte nem altas temperaturas. Lava-se a argila e devolve-se para a cava. Um ano depois, não há nem cicatriz no solo”, explica Marcelo Juliano de Carvalho, diretor executivo da Meteoric Resources. Segundo ele, outro diferencial é o uso de energia 100% renovável nas operações.
Projetos e investimentos
Dois grandes projetos estão em desenvolvimento na região:
• Projeto Caldeira (Meteoric Resources): estimativa de 740 milhões de toneladas em uma área de 193 km².
• Projeto Colossus (Viridis): estimativa de 201 milhões de toneladas em uma área de 228 km².
Juntas, essas iniciativas podem atender até 7% da demanda global por carbonato misto de terras raras. O início da operação está previsto entre 2026 e 2027.
O potencial mineral da região tem atraído investimentos estrangeiros. Atualmente, mais de vinte empresas solicitaram autorizações para explorar jazidas no Brasil. A arrecadação com a Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais (CFEM) também é significativa. Estima-se que Poços de Caldas poderá receber até R$ 23 milhões por ano, sendo R$ 15 milhões destinados diretamente ao município — valor equivalente a 15 anos de arrecadação com a mineração tradicional da região.
Desafios e cadeia produtiva
Apesar das vantagens, especialistas apontam a necessidade de estudos independentes sobre os impactos ambientais da mineração. Organizações locais, como a Aliança em Prol da APA da Pedra Branca, alertam para possíveis contaminações do solo, da água e do ar.
Em resposta, prefeituras da região vêm adotando medidas para garantir uma exploração responsável. Além do acompanhamento de estudos de impacto ambiental, municípios como Poços de Caldas e Caldas emitiram licenças de uso do solo e firmaram termos de compromisso voltados à proteção ambiental e ao desenvolvimento sustentável.
Outro desafio é a criação de uma cadeia produtiva nacional. Atualmente, a China domina a produção mundial de terras raras, com 75% da mineração, 85% do refino e 95% da fabricação de ímãs. Para mudar esse cenário, o Brasil lançou iniciativas para industrializar o processo.
Em maio, foi inaugurado em Lagoa Santa (MG) o CIT SENAI ITR, um centro de pesquisa com capacidade para produzir até 100 toneladas por ano de ímãs permanentes. Inicialmente, a matéria-prima será importada da China, mas o objetivo é usar o minério brasileiro no futuro.
Segundo a Federação das Indústrias de Minas Gerais (Fiemg), o objetivo é transformar o CIT SENAI ITR na maior planta de pesquisa aplicada em ímãs permanentes da América do Sul. O projeto MagBras, ligado ao centro, será o pontapé inicial para estruturar toda a cadeia industrial — da extração ao produto final — com valor agregado para setores estratégicos como energia, mobilidade elétrica e eletrônicos.
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