Escola pública de forró será inaugurada em Salvador
Primeira turma terá 16 alunos com aulas a partir de 14 de julho
Por: Iago Bacelar
24/06/2025 • 12:04
A cidade de Salvador terá, a partir de 14 de julho, uma escola gratuita dedicada à formação de forrozeiros, com aulas presenciais de sanfona, zabumba, triângulo e pandeiro. O projeto funcionará em uma sala da sede da Associação Cultural Asa Branca dos Forrozeiros da Bahia, localizada em um sobrado de dois andares na Rua do Passo, no Centro Histórico.
A proposta é conduzida por Marizete Nascimento, 77 anos, contadora aposentada e presidente da associação. A iniciativa tem como foco a preservação e difusão do forró tradicional, além da formação técnica de novos músicos. “Como dizia o finado Fel, um sanfoneiro, o ‘nosso forró é o de verdade, cara com cara, barriga do mesmo jeito’”, comenta Marizete.
Aulas abertas a diferentes perfis de alunos
A primeira turma terá 16 vagas, abertas para todas as idades e níveis de experiência. Pessoas com domínio prático da sanfona, mas que queiram se aprofundar na técnica, poderão participar junto a iniciantes que nunca tocaram um instrumento. Inicialmente, a prioridade será dada a quem já for associado da Asa Branca ou venha a se associar, mas a ideia é ampliar o público com foco em crianças e adolescentes de escolas públicas da região.
“Queremos trazê-los para a cultura. A gente quer que outras gerações deem continuidade porque tem muita gente morrendo, queremos continuar formando sanfoneiros para o forró de verdade”, afirma Marizete.
As aulas acontecerão três vezes por semana, com quatro professores já definidos. Os instrumentos, comprados nos últimos três meses, estão encaixotados no corredor da sede. Foram adquiridos com verba pública de R$ 88 mil, repassada em dezembro do ano passado.
Projeto amadurecido desde 2007 chega ao Centro Histórico
A ideia da escola nasceu em 2007, quando músicos e forrozeiros fundaram a Associação Asa Branca em Simões Filho, na Região Metropolitana de Salvador. Na época, Marizete já integrava o grupo. Com o tempo, ela decidiu mudar o projeto de cidade. “Só que a associação só dormia em Simões Filho. Eu já queria fazer isso [a escola] e vim para cá para o Centro Histórico para facilitar, para ter o apoio”, recorda.
A transição exigiu investimento pessoal. “Arrisquei minha aposentadoria para vir para cá, aluguei essa casa”, explica. O imóvel estava em condições precárias, mas após reformas, passou a abrigar a sede da associação com o nome “Casa do Forró” na fachada.
Divulgação na base do boca a boca e da dança
Com os preparativos finais em andamento, Marizete divulga a iniciativa em rodas de forró, encontros culturais e ligações diretas. Em uma delas, diz a um conhecido: “Eu vi você tocando ontem. Você já tá bem bom. Depois você vem conhecer as sanfonas daqui. Espalha a notícia que quero inaugurar com a turma fechada”.
Além da formação técnica, a Casa do Forró deve abrigar eventos e festas, após ajustes no galpão localizado no subsolo. “Já fazemos algumas festas, mas quero ajeitar aqui o fundo para fazermos eventos”, conta.
Uma trajetória marcada pelo ritmo do forró
Marizete nasceu em Quijingue, no sertão da Bahia, onde participou dos primeiros forrós em festas familiares. Ao chegar em Salvador, passou a frequentar o Restaurante Uauá, em Itapuã, ponto de encontro de músicos e dançarinos do gênero. Aos poucos, tornou-se referência entre os frequentadores e passou a atuar na produção de eventos.
“Quando o pessoal queria fazer festa nos condomínios e escolas, buscava o Uauá, e eu tinha o contato de todo mundo. Aí o povo foi me ligando, e eu andei levando as pessoas para fazer show”, relembra. A entrada do irmão no forró reforçou o envolvimento. “E meu irmão que era cantor entrou para o forró, e eu comecei a vender ele para o São João”.
Desde 2010, ela preside a Associação Cultural Asa Branca e já foi reeleita diversas vezes. Apesar da rotina administrativa, cogita aprender a tocar. “Eu acho que sempre me achei incapaz… Eu gosto mesmo é de dançar”, afirma.
Rodopiando ao som de um trio nordestino, ela encontra seu lugar. Para Marizete, a sanfona é o evangelho e a pista, o altar.
