Família de Juliana Marins vai à Justiça por negligência
Jovem brasileira caiu no Monte Rinjani e só foi localizada após quatro dias
Por: Iago Bacelar
25/06/2025 • 08:31 • Atualizado
A família da brasileira Juliana Marins anunciou que iniciará uma ação judicial por negligência contra os responsáveis pelo resgate da jovem, que morreu após cair durante uma trilha no Monte Rinjani, na Indonésia. A decisão foi divulgada nas redes sociais dias após o corpo da niteroiense ser localizado sem vida, quatro dias após o acidente ocorrido no sábado (21).
Em publicação no Instagram, a família responsabilizou diretamente a equipe de resgate pela morte de Juliana. "Se a equipe tivesse chegado até ela dentro do prazo estimado de 7h, Juliana ainda estaria viva. Juliana merecia muito mais. Agora nós vamos atrás de justiça por ela, porque é o que ela merece", afirmaram.
Operação de resgate enfrentou falhas e demora
Juliana foi localizada morta na terça-feira (24), cerca de 600 metros abaixo da trilha, após cair de um penhasco em uma área de difícil acesso. Ela havia relatado cansaço ao grupo com quem estava e ficou para trás, segundo relatos da irmã, Mariana Marins. O guia, identificado como Ali Musthofa, continuou com o restante do grupo.
Segundo Mariana, Juliana foi abandonada e a demora no resgate comprometeu qualquer chance de sobrevivência. A operação contou com mais de 40 profissionais, incluindo representantes da Embaixada do Brasil. Condições climáticas adversas e a geografia do local dificultaram a operação.
O corpo foi içado na terça por equipes de rapel e, conforme informado pelos familiares, o transporte até a entrada do parque ainda levaria cerca de 8h. "Às 14h45 aproximadamente (horário local), a equipe de rapel conseguiu terminar o içamento da maca. Às 15h começou o deslocamento até a entrada do parque", divulgaram.
Ausência de protocolos e críticas à agência
A tragédia evidenciou fragilidades na estrutura turística da região. Especialistas em montanhismo criticaram a ausência de exigências mínimas de segurança. Não há obrigação de levar equipamentos de emergência como cobertor térmico ou casaco. O guia responsável pela trilha também foi apontado como despreparado.
Montanhistas relataram que guias na região atuam sem preparo técnico, muitas vezes sem roupas adequadas, alimentos ou itens básicos de segurança. A conduta de deixar um integrante para trás foi reprovada por especialistas. "Todos precisam manter contato visual e orientação do mais experiente", explicou Aretha Duarte, montanhista.
Além disso, o histórico do Parque Nacional do Rinjani aponta 190 ocorrências e 9 mortes entre 2020 e 2024. A trilha possui clima instável, com chuvas repentinas e temperaturas baixas.
Resgate tardio e comunicação confusa
Ainda no primeiro dia após o desaparecimento, drones com câmeras térmicas foram usados. No entanto, cordas inadequadas e falta de socorro especializado comprometeram a operação. Juliana ficou mais de 24 horas desaparecida sem contato, o que, segundo especialistas, foi determinante para o desfecho.
Informações desencontradas também prejudicaram a operação. A agência responsável inicialmente afirmou que a brasileira havia recebido água e comida, o que foi desmentido pela família e pelo embaixador brasileiro no país.
Aretha Duarte destacou que a jovem contratou a trilha esperando apoio e segurança, o que não foi garantido. A especialista atribuiu à empresa contratada a responsabilidade civil pela condução do grupo.
Resposta das autoridades e críticas públicas
Em meio às críticas, a Agência Nacional de Busca e Resgate da Indonésia (Basarnas) publicou vídeos do resgate e defendeu sua atuação. Em nota publicada nas redes sociais, afirmou que "trilhas como a do Monte Rinjani envolvem riscos" e pediu compreensão quanto às dificuldades enfrentadas pelos socorristas.
A resposta gerou mais críticas. Brasileiros comentaram nas redes sociais que a operação foi lenta e que, com os recursos tecnológicos disponíveis, "é inadmissível que em 2025 a resposta ainda seja tão fria e demorada".
Homenagens e despedidas
Juliana Marins, de 26 anos, era natural de Niterói e viajava com recursos próprios. A jovem já havia passado por países como Vietnã, Tailândia e Filipinas. Em carta publicada nas redes sociais, o pai da jovem, Manoel Marins Filho, agradeceu o apoio recebido e se despediu da filha. "Você se foi fazendo o que mais gostava e isso conforta um pouco o nosso coração", escreveu.
O corpo de Juliana será encaminhado para a Universidade Federal do Acre após remoção, onde passará por estudos antes da repatriação.
