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Moda vira a chave e transforma idade em ativo nas passarelas

Com modelos mais velhas, setor reposiciona padrões e mira novo consumo

Por: Redação

02/05/202619:20

A indústria da moda decidiu mexer em um dos seus pilares mais antigos, a obsessão pela juventude. A edição mais recente da Vogue trouxe Meryl Streep e Anna Wintour, ambas com 76 anos, como protagonistas de capa, um movimento simbólico que reposiciona a idade como ativo e não mais como limitação.

Foto Moda vira a chave e transforma idade em ativo nas passarelas
Foto: Simbarashe Cha/NYT

Dentro das passarelas, o recado já vinha sendo dado. Grifes tradicionais passaram a incluir um número crescente de modelos acima dos 40 e 50 anos, algo que até pouco tempo era praticamente inexistente. Marcas como Chanel, Bottega Veneta, Tom Ford e Givenchy ampliaram esse espaço, enquanto nomes conhecidos como Kate Moss e Gillian Anderson reforçaram essa virada estética.

Dados do setor ajudam a explicar o movimento. Levantamento da Tagwalk aponta que 100% das grandes marcas incluíram pelo menos uma modelo mais velha em seus desfiles recentes. Em contrapartida, apenas 5% trouxeram diversidade de corpos, mostrando que a inclusão etária avançou mais rápido que outras pautas.

Mais do que presença, o que mudou foi a forma de enxergar o envelhecimento. Segundo especialistas da indústria, há uma valorização crescente de características naturais, como cabelos grisalhos e linhas de expressão, especialmente em modelos acima dos 50 anos. A estética do “rejuvenescimento obrigatório” começa a perder força, ainda que não desapareça completamente.

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Fora das passarelas, o movimento também ganha tração. Figuras como Paulina Porizkova passaram a expor o envelhecimento sem filtros nas redes sociais, enquanto o debate sobre menopausa e perimenopausa abriu um novo mercado na indústria da beleza. A narrativa agora flerta com autenticidade, palavra-chave no vocabulário atual da moda.

Existe também um fator econômico relevante. Consumidores com mais de 50 anos concentram grande parte do poder de compra, o que pressiona marcas a dialogarem com esse público. Estudos indicam que essa faixa etária responde por uma fatia significativa da riqueza e dos gastos, tornando-se estratégica para o setor.

Apesar do avanço, o cenário ainda carrega contradições. A chamada “nova visibilidade das mulheres mais velhas” convive com padrões estéticos elevados e caros, o que mantém barreiras de acesso. Em outras palavras, envelhecer virou tendência, mas ainda dentro de certos limites.

Mesmo assim, a mudança é clara. Ao transformar a idade em narrativa de força, experiência e autenticidade, a moda tenta se reconectar com a realidade fora das passarelas, e, de quebra, com um público que sempre esteve ali, mas raramente se via representado.