Moda sem conforto: um discurso de poder e status
Vestidos pesados e apertados mostram poder e cobram preço do corpo
Por: Iago Bacelar
28/05/2025 • 09:25 • Atualizado
O vestido de Marina Ruy Barbosa chamou atenção no Baile da amfAR, em Cannes, ao pesar mais de 15 quilos e deixar a atriz com o braço roxo, inchado e com veias salientes. Apesar do desconforto, Marina descreveu a peça como "o vestido dos meus sonhos" e a chamou de "obra-prima" em suas redes sociais.
Assim como Marina, a cantora SZA usou um look que limitou seus movimentos no American Music Awards. Sua saia apertada dificultou até mesmo caminhar, e ela precisou de ajuda para se locomover no evento e chegar ao palco.
Esses casos recentes exemplificam uma prática antiga de usar roupas que colocam o glamour e a imagem à frente do bem-estar físico. A escolha por looks desconfortáveis não é exclusividade de Marina ou SZA. Outros exemplos mostram como a ideia de que "chique é ser inalcançável" continua sendo reproduzida.
A moda que machuca
Em maio de 2024, Bruna Marquezine compartilhou que seu vestido no Met Gala a deixou sufocada. "Não dava para respirar. Eu mandei apertar tudo que dava, tudo que tinha", contou a atriz. O tecido, muito grosso, chegou a cortar a pele dela, que precisou usar fita adesiva para não sangrar durante o evento.
Desmaio e desconforto em tapetes vermelhos
Em 2019, a atriz Elle Fanning desmaiou durante o Festival de Cannes ao usar um vestido muito apertado. Depois do susto, ela explicou em suas redes: "Ops, tive um desmaio hoje com meu vestido Prada da década de 1950, mas está tudo bem! Vestido apertado demais".
Naquele mesmo ano, a modelo Kim Kardashian esteve no Met Gala com um vestido que a impedia de sentar. Em 2024, Kim voltou ao evento com um espartilho ainda mais extremo, que afinou sua cintura ao ponto de deixá-la respirando com dificuldade durante toda a festa.
Pesos e status no tapete vermelho
Segundo o professor e especialista em moda Fernando Hage, o uso de roupas pesadas e que causam desconforto está historicamente ligado à nobreza e à ideia de status. "Os nobres usavam trajes feitos para gerar uma ideia de poder, força ou riqueza", afirmou Fernando.
Ele explicou que essas roupas eram usadas em bailes de realeza e retratadas em quadros, diferenciando as classes sociais. Durante séculos, a noção de elegância ficou atrelada ao exagero, com roupas bufantes, bordados, camadas e design complexo.
Evolução do conceito de conforto
Até o século 18, a prioridade não era o conforto, que tinha um significado diferente. Os trajes extravagantes não serviam apenas para simbolizar poder. Fernando ressaltou que "o excesso de tecido era útil no inverno e as armaduras masculinas eram protegidas por materiais potentes".
Na contemporaneidade, essas roupas perderam suas utilidades práticas e passaram a representar apenas a mensagem que transmitem. A associação entre elegância e complexidade permanece, mas se transformou em um discurso de poder nas redes sociais.
Poder e estética
Fernando Hage define o look de Marina como "um vestido-armadura", que não tem praticidade, mas funciona como "armadura social". Ele explica que, culturalmente, existe um estímulo à obsessão feminina pela imagem. Essa busca se reflete em cirurgias plásticas e roupas de numeração menor.
Ele ressalta que muitos looks femininos são desenhados por estilistas homens, que projetam um "ideal de mulher" que não considera o conforto ou o bem-estar. "O problema é que esse ideal é justamente o de uma beleza que machuca", diz Fernando.
A moda como discurso
A cantora Celine Dion relatou no documentário "Eu Sou: Celine Dion" que forçou seus pés a caberem em sapatos menores. Ela disse que, quando uma mulher ama o sapato, vai fazer caber, mesmo que cause ferimentos. Essa fala ecoa a pressão estética sobre mulheres, que vão além das roupas e incluem comportamentos que machucam fisicamente.
O professor Fernando lembra que, mesmo que hoje esses trajes sejam mais raros no cotidiano, continuam sendo usados em grandes eventos para reforçar a imagem de poder. Essa prática se mantém em tapetes vermelhos e galas, sempre à vista de milhões nas redes sociais.
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