Tonho Matéria cobra valorização da cultura negra além do Carnaval
Artista fala sobre políticas públicas, periferia, trajetória e novos projetos musicais
Por: Marcos Flávio Nascimento
09/02/2026 • 15:00 • Atualizado
Convidado do Portal Esfera no Rádio desta segunda-feira (9), transmitido na Rádio Itapoan FM (97,5), apresentado por Luis Ganem, Tonho Matéria fez um discurso firme sobre a falta de valorização da cultura negra para além do Carnaval e defendeu políticas públicas permanentes, com participação efetiva da iniciativa privada, voltadas às periferias e aos artistas que mantêm viva a identidade cultural da Bahia durante todo o ano.
Ao responder sobre os desafios enfrentados por artistas negros, Tonho recorreu à música e à história para contextualizar o problema. “A caminhada é árdua. A gente ainda não conseguiu fazer esse avanço no campo da valorização. É o tal do 14 de maio que Jorge Portugal e Lazzo narram”, afirmou, ao citar a data que simboliza o abandono da população negra no pós-abolição.
Segundo o artista, há um erro estrutural na forma como o poder público e empresas se relacionam com a cultura produzida nas comunidades. Para ele, falta coerência entre o discurso e a prática:
“As empresas fazem propaganda pedindo paz, dizendo que querem diminuir a violência, mas não dão base para o jovem, que é o que mais precisa."
Tonho também destacou que o consumo dos grandes serviços e marcas vem, majoritariamente, da periferia, o que deveria estimular parcerias mais justas. “Quem consome cerveja, combustível, mercado, são as pessoas da base, das comunidades. É só fazer essa parceria”, disse.
Trajetória marcada pela sobrevivência e pela cultura
Filho do bairro do Pau Miúdo, Tonho Matéria relembrou a infância em um território marcado pela escassez, mas também pela potência cultural. “Meu pai vendia laranja na rua, minha mãe vendia acarajé. Era muito difícil, mas ali eu fui entendendo esse lugar”, contou. Ainda jovem, ele já exercitava o empreendedorismo vendendo comidas em festas de largo e eventos populares.
A musicalidade, segundo ele, veio da vivência comunitária, da capoeira, do candomblé e da igreja, espaços que marcaram sua formação humana e artística.
“A capoeira me deu esse start. Ouvir os mestres, tocar, cantar, tudo isso foi moldando minha vida”, relatou.
Novos projetos e bloco ancestral
Durante a conversa, Tonho Matéria também falou dos projetos atuais. Um deles é a aprovação, via Lei Rouanet, do projeto para a construção da sede do Mangangá, uma conquista aguardada desde 2004 e que simboliza anos de resistência cultural.
Na música, o artista apresentou o EP “Versões”, que revisita sucessos da carreira com novos arranjos e inclui faixas inéditas. “É um projeto que recria coisas que eu já tinha e transforma em novos avanços”, explicou.
Tonho destacou ainda a trajetória do Bloco da Capoeira, que completa 25 anos de história e 18 anos de desfile. “É um bloco ancestral. A capoeira é invisível para muita gente, mas ela sustenta tudo isso aqui”, afirmou, ao lembrar as dificuldades enfrentadas para manter o projeto ativo ao longo dos anos.
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