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“Meninos de 10 anos já consomem discurso de ódio”, alerta superintendente

Especialista alerta para influência sobre jovens e risco de violência

Por: Domynique Fonseca

17/03/202612:50Atualizado

O avanço de grupos virtuais que disseminam discursos de ódio contra mulheres tem gerado preocupação entre autoridades na Bahia. O tema foi abordado pela advogada Camila Batista, superintendente de Prevenção e Enfrentamento à Violência contra a Mulher, durante entrevista ao Programa Portal Esfera no Rádio, da 97,5 FM, apresentado por Luis Ganem, nesta terça-feira (17).

Foto “Meninos de 10 anos já consomem discurso de ódio”, alerta superintendente
Foto: Pedro Henrique/ Portal Esfera

Segundo a especialista, esses ambientes digitais têm contribuído para reforçar desigualdades de gênero e influenciar comportamentos, especialmente entre jovens.

“A gente vive dentro de uma sociedade ainda muito misógina, muito patriarcal. É uma construção social que precisa ser desconstruída”, afirmou.

De acordo com Camila, grupos conhecidos como “machosfera” utilizam fóruns, redes sociais e aplicativos de mensagens para difundir ideias que colocam homens em posição de superioridade e incentivam o desprezo pelas mulheres.

Esses grupos também compartilham códigos próprios e conceitos amplamente utilizados nesses espaços. Termos como “redpill”, “incels” e a teoria “80/20” fazem parte desse vocabulário e ajudam a estruturar narrativas que, segundo especialistas, alimentam frustração e ressentimento.

“Eles criam uma ideia de que existe uma guerra entre homens e mulheres, e que os homens precisam retomar o poder. Isso reforça comportamentos perigosos”, explicou.

Influência precoce

Um dos pontos que mais chamam atenção, segundo a superintendente, é a faixa etária dos jovens impactados por esse tipo de conteúdo.

“O que mais preocupa é que isso tem atingido meninos muito novos, de 10, 11 anos. Antes mesmo de qualquer relacionamento, eles já estão inseridos nesse discurso de ódio”, destacou.

Ela também apontou que o ambiente virtual, muitas vezes, se torna o principal espaço de formação desses adolescentes.

“Eles passam muito tempo consumindo esse conteúdo e acabam formando opiniões a partir disso. Muitas vezes, transformam frustrações em raiva direcionada às mulheres”, disse.

Para a advogada, esse cenário pode contribuir para o agravamento da violência de gênero, inclusive em casos extremos.

“Não adianta ter várias estruturas de enfrentamento se a gente não fizer o trabalho de prevenção. A violência só vai diminuir quando houver mudança de mentalidade e mais respeito à vida das mulheres”, afirmou.

Caminhos para enfrentamento

A superintendente defende que o combate a esse tipo de discurso passa, principalmente, pela educação e pelo debate dentro das escolas, famílias e comunidades.

“É fundamental levar essa discussão para o ambiente escolar e social. Sem conscientização, a gente não consegue romper esse ciclo”, concluiu.