Criptomoeda verde apoiada por gigantes afunda após perder 99% de valor
Token MCO2 chegou a patrocinar o Flamengo e atraiu grandes empresas antes do colapso
Por: Iago Bacelar
21/07/2025 • 09:55
A criptomoeda MCO2, criada pela Moss Earth e lastreada em créditos de carbono, perdeu mais de 99% de seu valor desde o auge. O ativo digital foi vendido como uma solução ambiental para grandes empresas e bilionários, e chegou a atrair GOL, C6 Bank e o Flamengo, mas derreteu no mercado e envolveu a empresa em polêmicas com fazendas investigadas pela Polícia Federal (PF).
Início promissor e mira em bilionários
O token foi promovido como o primeiro a representar créditos de carbono no mercado digital. Internamente, o então CEO Luis Adaime buscava impulsionar o MCO2 com apoio de nomes influentes do setor empresarial.
“Seria incrível conectar com o Elon”, disse Adaime em troca de mensagens com um lobista contratado para captar investimentos. Ele se referia ao bilionário Elon Musk, após o empresário ter publicado um tuíte criticando o impacto ambiental do Bitcoin. Adaime afirmou que a Moss era “a única companhia no mundo que tem a solução para isso”.
O lobista prometeu ajuda. “Vou me reunir com Jeff Bezos em novembro, na COP 26, e obviamente vou deixá-lo a par da Moss nessa conversa”. Ele também disse ter aproximado a empresa dos irmãos Winklevoss, fundadores da corretora americana Gemini. O relacionamento entre Adaime e o consultor terminou em atrito. Adaime alegou que as investidas não tiveram sucesso. O lobista, por sua vez, disse que usou contatos importantes sem retorno financeiro.
Apoios de empresas e patrocínio ao Flamengo
A estratégia de marketing da Moss conquistou o interesse de empresas conhecidas. A GOL Linhas Aéreas anunciou em 2023 uma parceria com a Moss para que clientes pudessem neutralizar as emissões de carbono de voos nacionais e internacionais por meio da compra de créditos no site da empresa.
O C6 Bank divulgou que havia zerado suas emissões de carbono com base na aquisição dos créditos fornecidos pela Moss. Em 2021, o ativo estava em alta e a empresa firmou um patrocínio de R$ 3,5 milhões com o Flamengo, com exposição da marca nos meiões dos jogadores. A ação gerou críticas quando Adaime reclamou de um atleta que usava o uniforme de forma a ocultar o logotipo.
Queda do valor e problemas com as fazendas lastreadas
A partir de 2022, o mercado de créditos de carbono passou a enfrentar questionamentos sobre a credibilidade dos projetos ambientais. Isso resultou em queda abrupta do valor da MCO2, que já foi vendida a cerca de R$ 100 (quase US$ 18), mas atualmente vale cerca de R$ 0,80.
A derrocada se agravou quando a PF lançou a Operação Greenwashing, investigando a fazenda Ituxi, usada como lastro do token. A propriedade fazia parte de um conjunto de terras atribuídas ao empresário Ricardo Stoppe Jr., acusado de grilagem de mais de 500 mil hectares na Amazônia.
Stoppe Jr., então parceiro da Moss, declarou à Forbes que a aliança com a empresa “viabilizou a venda do crédito de carbono”. Após a operação, surgiram denúncias de corrupção em cartórios, registros falsos e proteção informal feita por agentes públicos.
Reestruturação da Moss e mudança de foco
Com a queda do token, a Moss deixou de atuar com a tokenização de carbono. A empresa também reduziu sua presença nas redes sociais, o que gerou queixas de investidores. Em uma das postagens, Adaime afirmou que os acontecimentos a partir de 2023, como “críticas pesadas da imprensa internacional” e problemas com projetos REDD, derrubaram os preços dos créditos de carbono como classe de ativos.
Ele explicou que, desde 2022, a Moss passou a se posicionar como desenvolvedora de projetos de carbono, abandonando o modelo de marketplace e intermediação.
O que diz a Moss atualmente
Procurada, a Moss Earth informou que segue em operação e agora se concentra no desenvolvimento de projetos com certificação internacional. O atual CEO, Guilherme Rossetto, afirmou que a empresa passou por uma reestruturação em 2024, o que justificaria a pausa nas comunicações públicas.
Sobre a inclusão da fazenda Ituxi, Rossetto disse que o projeto foi aceito antes dos “apontamentos sobre eventuais inconsistências fundiárias”, os quais só teriam surgido em 2024 — dois anos após o início da retração no mercado voluntário de carbono.
Em relação aos contatos com Musk e Bezos, Rossetto declarou que houve apenas interações comerciais naturais para empresas com atuação global e que não poderia comentar informações confidenciais.
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