ONU registra 12 mil mortes e mutilações infantis
Violência contra crianças em conflitos cresce 25% em 2024
Por: Victor Hugo
22/06/2025 • 08:31
No ano passado, a violência contra crianças em situações de conflitos armados alcançou níveis alarmantes, com um aumento de 25% nas violações graves em relação a 2023. Essa informação é destacada no relatório anual da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre crianças e conflitos armados.
Em 2024, foram documentados 4.676 assassinatos e 7.291 mutilações, totalizando 11.967 crianças afetadas. Além disso, a negação de acesso humanitário registrou 7.906 incidentes, enquanto o recrutamento e uso de crianças somaram 7.402 casos, e o sequestro de menores atingiu 4.573, revelando números extremamente preocupantes.
Segundo o relatório, apesar de grupos armados não estatais terem sido responsáveis por quase 50% das violações, as forças governamentais foram as principais perpetradoras da morte e mutilação de crianças, de ataques a escolas e hospitais e da negação de acesso humanitário.
"Crianças foram mortas e mutiladas, muitas vezes resultando em incapacidades permanentes, em números alarmantes, pelo uso de munições explosivas, incluindo resíduos explosivos de guerra, minas e dispositivos explosivos improvisados, e pelo fogo cruzado entre as partes em conflito. Ataques a instalações civis, incluindo escolas e hospitais, aumentaram drasticamente a vulnerabilidade das crianças", diz o relatório.
Os maiores números de violações graves foram verificados no Território Palestino Ocupado (8.554), especialmente na Faixa de Gaza, que sofre ataques massivos de Israel; na República Democrática do Congo (4.043); na Somália (2.568); na Nigéria (2.436) e no Haiti (2.269).
Negação humanitária
A ONU alerta que a negação de acesso humanitário atingiu uma "escala alarmante", com um número recorde de trabalhadores humanitários mortos em 2024, incluindo muitos de seus próprios funcionários.
O relatório destaca que as partes em conflito têm atacado comboios e equipes de ajuda, detido arbitrariamente trabalhadores humanitários e imposto restrições que dificultam as operações. Essas ações resultaram em crianças sem acesso a cuidados de saúde, educação e outras necessidades essenciais.
Violência sexual
O relatório da ONU revela um aumento de 35% nos casos de violência sexual, destacando um "aumento drástico" nos casos de estupro coletivo. Essa situação evidencia o uso sistemático da violência sexual como uma tática de guerra, com crianças sendo associadas a grupos em conflito para fins de controle territorial, deslocamento populacional e ataques direcionados a etnias ou gêneros específicos.
O documento também menciona que meninas foram sequestradas para recrutamento, uso e escravidão sexual. A violência sexual permanece amplamente subnotificada devido a fatores como estigmatização, medo de represálias, normas sociais prejudiciais, falta de acesso a serviços e impunidade, conforme apontado no relatório sobre violência sexual em contextos de conflito.
Palestina e Israel
As Nações Unidas relataram 8.554 violações graves contra 2.959 crianças em Israel, com a maioria das vítimas sendo palestinas e 15 de nacionalidade israelense. Nos territórios palestinos ocupados, que incluem a Cisjordânia, Jerusalém Oriental e a Faixa de Gaza, foram registradas 8.544 violações, sendo 4.856 apenas em Gaza, que enfrenta um cerco das forças militares israelenses. O relatório também menciona a espera por verificação de relatos sobre o assassinato de 4.470 crianças na Faixa de Gaza em 2024.
As violações graves foram atribuídas principalmente às forças armadas e de segurança israelenses, que somaram 7.188 casos. Outros perpetradores incluíram colonos israelenses, indivíduos palestinos, forças de segurança da Autoridade Palestina, Hezbollah e as Forças Armadas da República Islâmica do Irã. O documento destaca a gravidade da situação, com um número alarmante de crianças afetadas por conflitos armados.
Além disso, as Nações Unidas verificaram a detenção de 951 crianças palestinas, sendo 940 meninos e 11 meninas, por supostas infrações de segurança cometidas pelas forças israelenses. Essas detenções ocorreram principalmente na Cisjordânia, Jerusalém Oriental e na Faixa de Gaza. O relatório também confirmou que 1.561 crianças palestinas foram mutiladas, com 620 na Cisjordânia e 941 na Faixa de Gaza, evidenciando o impacto devastador do conflito sobre a infância na região.
República Democrática do Congo
No Congo, as Nações Unidas registraram 4.043 violações graves contra 3.418 crianças, sendo 2.217 meninos e 1.201 meninas, além de confirmar 453 violações ocorridas em anos anteriores. A milícia Raia recrutou e utilizou 2.365 crianças, refletindo a gravidade da situação em uma região marcada por conflitos prolongados e pela presença de diversos grupos armados, que intensificaram suas atividades desde 2022. A riqueza mineral da região atrai tanto grupos armados quanto potências estrangeiras, resultando em disputas acirradas pelo controle de recursos.
O conflito tem gerado um deslocamento em massa de civis, com milhares buscando abrigo em campos de deslocados internos, onde enfrentam condições precárias e riscos à segurança, incluindo violência sexual e recrutamento forçado. A situação humanitária é alarmante, com muitas crianças sendo diretamente afetadas pela violência.
O relatório também aponta que 438 crianças, das quais 317 meninos e 121 meninas, foram mortas ou mutiladas, com a maioria das baixas atribuídas ao grupo M23. Outras milícias, como Codeco e ADF, também contribuíram para essas estatísticas trágicas. As operações militares foram responsáveis por 250 das mortes, evidenciando o impacto devastador do conflito sobre a infância no país.
Somália
A Somália enfrenta uma instabilidade crônica, exacerbada por uma guerra civil e pela forte presença de grupos armados insurgentes, como o Al-Shabaab, que agravam a insegurança e dificultam a reconstrução do país. As Nações Unidas relataram 2.568 violações graves contra 1.992 crianças, além de 50 violações de anos anteriores.
Dentre as vítimas, 595 crianças foram mortas ou mutiladas, com a maioria das mortes atribuídas a autores não identificados (296), seguidos pelo Al-Shabaab (119) e pelas forças de segurança do governo (70). O relatório também destaca casos de violência sexual e o recrutamento de crianças para grupos armados, evidenciando a gravidade da situação enfrentada pela infância somali.
Nigéria
Na Nigéria, o país mais populoso da África, com cerca de 200 milhões de habitantes, a desigualdade social crônica e a violência, exacerbadas pela atuação de grupos armados, resultaram em 2.436 violações graves contra 1.037 crianças, sendo 386 meninos e 651 meninas, além de 269 violações de anos anteriores.
Cerca de 974 crianças foram recrutadas e utilizadas, principalmente após sequestros, por grupos como a Jama’atu Ahlis Sunna Lidda’Awati Wal-Jihad (JAS) e a Província do Estado Islâmico da África Ocidental (ISWAP). As Forças de Segurança Nigerianas também detiveram 732 crianças sob a suspeita de associação com grupos armados, todas liberadas posteriormente. Além disso, 49 crianças foram mortas ou mutiladas, com a maioria das baixas atribuídas à JAS e ao ISWAP.
O relatório também documentou casos de violência sexual, todos relacionados a casamentos forçados, afetando 419 crianças, sendo 412 meninas e 7 meninos. As principais responsáveis por essas violações foram a JAS e o ISWAP, evidenciando a grave situação enfrentada pela infância na Nigéria.
Haiti
No Haiti, um país caribenho que enfrenta instabilidade política e social há décadas, as Nações Unidas relataram 2.269 violações graves contra 1.373 crianças no último ano, além de 24 violações registradas em anos anteriores. A situação é agravada pela atuação de gangues armadas e pela Polícia Nacional Haitiana.
O relatório aponta que 351 crianças foram assassinadas ou mutiladas, com 213 mortes e 138 mutilações atribuídas a diversas gangues e à polícia. Além disso, 566 crianças, sendo 523 meninas e 43 meninos, foram vítimas de violência sexual. O documento também menciona detenções de crianças pelas forças de segurança e o recrutamento de menores por grupos armados, evidenciando a grave crise que afeta a infância no Haiti.
