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Jurassic World: Recomeço

Terror leve e roteiro reciclado

Por: Ana Beatriz Fernandez Martinez

02/07/202520:00

A cena mais simbólica de Jurassic World: Recomeço também é a mais significativa. Enquanto tenta convencer a mercenária Zora Bennett (Scarlett Johansson) a liderar uma missão em mais uma ilha infestada de dinossauros, Martin Krebs (Rupert Friend), executivo de uma farmacêutica com intenções nada confiáveis, dirige por uma Nova York travada por um trânsito inusitado: um brontossauro doente escapou do zoológico e parou no meio de um cruzamento. Impaciente, Krebs solta: “Morra ou viva, só saia logo da frente.”

Jurassic World
Foto: Divulgação/Universal Pictures

Esse momento resume o desinteresse crescente com a franquia. O roteiro de David Koepp, roteirista do filme original de 1993, traz reflexões que ecoam essa ideia. Dinossauros são descritos como “engenharia do entretenimento”, e o filme gira em torno da pergunta: como fazer o público se importar novamente? Ao final dos 134 minutos, os sobreviventes escapam das ameaças jurássicas – incluindo o mutante Dementus Rex, fusão de Xenomorfo, Rancor e T-Rex – sem respostas claras.

Ainda que repetitivo, o percurso até esse desfecho tem seus destaques. Zora lidera uma equipe formada por Krebs, o contrabandista Duncan Kincaid (Mahershala Ali, magnético apesar do papel limitado), alguns coadjuvantes descartáveis e o paleontólogo Henry Loomis (Jonathan Bailey), discípulo de Alan Grant. Loomis expressa as ideias mais idealistas sobre os dinossauros e seu papel na cultura atual. O elenco entrega o que pode, com destaque para Ali, mas precisa dividir espaço com a família Delgado – liderada por Reuben (Manuel Garcia-Rulfo), que tenta atravessar o Atlântico com as filhas antes que a mais velha vá para a faculdade, acompanhada do namorado insuportável.

Como eles passam por patrulhas internacionais? Por que escolher justamente aquelas águas perigosas? O filme oferece explicações frágeis. Na prática, servem apenas para garantir que haja uma criança para virar amiga de um dinossaurinho – e, claro, virar brinquedo.

Não é surpresa que o sétimo capítulo da saga priorize interesses comerciais. O problema é o pouco que faz com as ideias recicladas. Os dinossauros mutantes são a desculpa de Gareth Edwards para flertar com o terror. Ainda que não assuste de verdade, é o primeiro filme da franquia desde Jurassic Park a tentar apresentar os dinossauros como ameaças de verdade. Como fez em Godzilla, Edwards esconde os monstros em névoas, sombras e mares, revelando-os de forma impactante. O encontro com o Mosassauro, por exemplo, oferece algumas das cenas visuais mais emocionantes desde Spielberg. Isso também vale para os pterodátilos e para a sequência aquática com o T-Rex, inspirada em uma cena cortada do filme original, mas icônica no livro de Michael Crichton. A tensão, porém, esvanece quando sabemos que nenhum dos protagonistas vai morrer.

E aí está o maior obstáculo de Recomeço: além da previsibilidade do roteiro, o filme repete dinâmicas e ritmos que o público já conhece há trinta anos. O impacto inovador se perdeu à medida que Park deu lugar a World, e a franquia deixou de buscar o realismo para se render ao excesso de computação gráfica. O T-Rex, com toda sua força simbólica, perde espaço para um D-Rex que, por mais criativo que pareça, não impõe o mesmo respeito.

No fim, essa repetição – também retratada na decadência dos museus de dinossauros dentro da trama – enfraquece os acertos do filme. Assim como os personagens coletam sangue de diversas espécies para tentar curar a humanidade, Jurassic World: Recomeço parece buscar, sem sucesso, uma transfusão de vida criativa para a franquia. Mas, depois de Domínio, já quase não há mais sangue para se tirar.