Logo

Adelmo Casé fala sobre viralização e momento delicado da música baiana

Cantor afirmou que artistas são pressionados por trends e defendeu valorização da música autoral

Por: Marcos Flávio Nascimento

12/06/202616:30

A crescente busca por viralização nas redes sociais e a dificuldade de artistas autorais ganharem espaço no mercado musical atual foram alguns dos temas abordados pelo cantor Adelmo Casé durante entrevista ao apresentador Luis Ganem, no programa Portal Esfera no Rádio.

Cantor cedeu entrevista ao portal Esfera
Foto: Lorena Bomfim / Portal Esfera

Ao analisar o cenário da indústria musical, o ex-vocalista da banda Negra Cor afirmou que o sucesso das plataformas digitais tem impulsionado uma lógica baseada em números, curtidas e tendências virais, muitas vezes em detrimento da qualidade artística.

Na avaliação do artista, existe uma pressão constante para que músicos adaptem suas carreiras ao formato exigido pelas redes sociais. "Na grande mídia e na maioria das redes sociais existe a busca pelo trend, pelo like e pelo número de seguidores. Isso acaba levando a música para um lado que muitas vezes não é tão legal", declarou.

Apesar da transformação no mercado, Adelmo disse que não pretende moldar sua produção artística para atender às demandas de viralização. "Eu me nego completamente a seguir esse curso. Não faço música voltada para esse tipo de apelo", afirmou.

Música autoral enfrenta dificuldades para ganhar espaço

Durante a conversa, o cantor destacou que muitos artistas baianos continuam produzindo trabalhos de qualidade, mas enfrentam obstáculos para alcançar maior visibilidade.

Entre os nomes citados por ele estão Saulo, Timbalada, BaianaSystem e a banda Filhos de Jorge, apontados como exemplos de artistas que seguem investindo em composições e propostas musicais mais elaboradas.

Para Adelmo, uma das dificuldades atuais é justamente fazer com que músicas autorais cheguem ao público em meio à grande oferta de conteúdo digital.

"Quantas coisas a gente lança de qualidade e simplesmente não chegam às pessoas? Tem muita música boa perdida nesse mar de lançamentos", observou.

O cantor também criticou o comportamento de parte do público nas plataformas digitais, apontando que muitas vezes artistas independentes não recebem apoio nem mesmo de pessoas próximas.

"Tem amigo que não ouve a música nova, não faz um pré-save, não compartilha. Existe também uma responsabilidade das pessoas de apoiar quem está produzindo arte ao seu lado", disse.

Redes sociais mudaram a lógica do sucesso

Ao falar sobre o conceito de sucesso na música, Adelmo afirmou que a percepção varia de acordo com cada artista. Segundo ele, enquanto alguns associam realização profissional à fama ou ao dinheiro, outros enxergam a carreira de maneira diferente.

"O sucesso para muita gente é dinheiro. Para outras pessoas é mídia. Eu continuo fazendo shows, produzindo e trabalhando, mas tem quem ache que você sumiu só porque não está aparecendo tanto", comentou.

Mesmo reconhecendo que as plataformas digitais democratizaram o acesso à divulgação musical, o artista acredita que apenas disponibilizar músicas nos serviços de streaming não garante alcance.

"Hoje qualquer pessoa consegue colocar uma música no mundo, mas isso não significa que ela será ouvida. Ela fica ali disputando espaço com milhares de outras canções", avaliou.

Adelmo também mencionou o caso do cantor baiano Pedro Pondé, cuja música "Sente a Paz Desse Lugar" ganhou projeção nacional de forma espontânea nas redes sociais.

"Foi algo natural. De repente, artistas e personalidades começaram a usar a música nos vídeos. Mas isso é quase uma loteria. Nem sempre acontece", afirmou.

Ainda na entrevista, o cantor chamou atenção para mudanças de comportamento do público, especialmente entre os mais jovens. Segundo ele, hábitos ligados ao consumo de álcool e ao entretenimento noturno vêm se transformando, refletindo uma nova geração com prioridades diferentes.

"Hoje tem muita gente que prefere acordar cedo para correr, fazer atividade física, cuidar da saúde. É um comportamento diferente do que a gente via antigamente", concluiu.