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Doar sangue pode ter efeito protetor

Alterações podem evitar leucemias

Por: Ana Beatriz Fernandez Martinez

25/06/202515:30Atualizado

Um estudo publicado em maio na revista científica Blood, da Sociedade Americana de Hematologia (ASH), sugere que doar sangue com frequência pode estar associado a alterações genéticas benéficas. A pesquisa analisou o sangue de doadores habituais e identificou mutações que podem oferecer proteção contra certos tipos de câncer, como leucemias.

Uma mulher em um banco de sangue
Foto: Divulgação/HGRS

Os cientistas destacam que há pouco conhecimento sobre como o organismo responde à produção acelerada de células sanguíneas após as doações. Normalmente, os glóbulos vermelhos se renovam três vezes por ano, mas a doação frequente exige um esforço maior da medula óssea — processo conhecido como hematopoiese.

Durante esse processo, as células produzidas costumam ser diversas. No entanto, podem ocorrer erros que geram clones celulares idênticos. Esse fenômeno, chamado hematopoiese clonal, é mais comum com o envelhecimento e, em alguns casos, pode levar ao surgimento de células malignas.

Pesquisadores do Instituto Francis Crick, no Reino Unido, investigaram a presença desse tipo de clonagem em 217 homens que haviam feito cerca de três doações de sangue por ano durante 40 anos — mais de 100 no total. Eles foram comparados com um grupo de 212 homens que doaram esporadicamente ou nunca.

Embora a frequência de hematopoiese clonal tenha sido similar entre os grupos, os cientistas notaram que os tipos de mutações diferiam. Nos doadores regulares, as alterações genéticas identificadas pareciam mais favoráveis, possivelmente oferecendo proteção contra o desenvolvimento de certos tipos de câncer.

O estudo também avaliou como as células sanguíneas dos dois grupos reagiam a duas substâncias naturais: a eritropoetina (que estimula a produção de sangue) e o interferon gama (relacionado à resposta inflamatória). Nos doadores frequentes, a exposição à eritropoetina estimulou clones com mutações benignas em um gene específico. Já entre os doadores ocasionais, o contato com o interferon gama favoreceu a formação de clones com mutações potencialmente perigosas.

Apesar dos achados promissores, especialistas pedem cautela. A hematologista Ana Carolina Vieira Lima, do Hospital Israelita Albert Einstein de Goiânia, alerta que os resultados ainda não permitem conclusões definitivas. “Embora o estudo sugira um possível benefício, não é possível afirmar que doar sangue com frequência proteja contra o câncer”, afirma.

Ela também destaca que a pesquisa foi realizada in vitro, ou seja, em ambiente de laboratório, e que as células fora do corpo humano podem reagir de forma diferente em comparação ao organismo vivo.

Outro ponto importante é que a doação de sangue deve seguir critérios de segurança. Estimular doações com base em benefícios individuais pode ser arriscado, segundo a médica, pois o procedimento repetido pode causar efeitos colaterais, como anemia, hematomas ou problemas na veia.

Doar sangue apenas para obter vantagens pessoais também é inadequado. “O doador deve estar em boas condições de saúde e responder com honestidade à triagem, pois falsos dados podem colocar o receptor em risco”, alerta a especialista. Ela também lembra que a doação não deve ser usada como forma de testagem para doenças, como HIV ou hepatites, devido à chamada janela imunológica — período em que a infecção pode não ser detectada nos exames.

Para doar, é necessário estar saudável, pesar ao menos 50 quilos, ter entre 16 e 69 anos, estar alimentado e descansado, conforme orientações do Pró-Sangue Hemocentro de São Paulo.

Algumas condições de saúde impedem a doação de forma temporária, como gravidez, puerpério, amamentação, gripes, resfriados ou infecções, como dengue. Procedimentos como tatuagens, piercings, cirurgias odontológicas ou endoscopias exigem tempo de espera. O mesmo vale para quem foi vacinado recentemente ou viajou para áreas com risco de doenças como febre amarela e malária.

Há ainda impedimentos definitivos, como ter tido hepatite após os 11 anos de idade, diagnóstico de HIV, hepatites B ou C, doença de Chagas ou uso de drogas injetáveis ilícitas.

Homens podem doar a cada 60 dias, até quatro vezes ao ano. Já as mulheres devem esperar 90 dias entre uma doação e outra, com limite de três doações anuais.